terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A morte absoluta


Morrer.

Morrer de corpo e de alma.

Completamente.


Morrer sem deixar o triste despojo da carne,

A exangue máscara de cera,

Cercada de flores,

Que apodrecerão - felizes! - num dia,

Banhada de lágrimas

Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.


Morrer sem deixar porventura uma alma errante...

A caminho do céu?

Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?


Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,

A lembrança de uma sombra

Em nenhum coração, em nenhum pensamento,

Em nenhuma epiderme.


Morrer tão completamente

Que um dia ao lerem o teu nome num papel

Perguntem: "Quem foi?...


"Morrer mais completamente ainda,

- Sem deixar sequer esse nome.


(Manuel Bandeira)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Tão Cedo



Tão cedo tudo quanto passa!

Morre tão jovem ante os deuses quanto

Morre! Tudo é tão pouco!

Nada se sabe, tudo se imagina.

Circunda-te de rosas, ama, bebe

E cala.

O mais é nada.


(Ricardo Reis)

Alcoólicas


...

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.
...
(Hilda Hilst)

domingo, 6 de janeiro de 2008

NO FUNDO TUDO É PRO FUNDO...


Não tem fim uma noite dessas...
ÀS VEZES A GENTE ACHA QUE TUDO SE RESOLVEU, MAS É SÓ UM ADIANTO...
Nem preciso dizer mais nada
À uma hora dessas é hora de todo mundo dormir... que faço eu cochilando não sei.. nem precisam me responder as coisas são coisas já dizia Arnaldo Antunes... não costumo recitar versos por não ter boa memória e vivo vagando no fundo do nada. E esse nada é um monte de história que vira página e nunca termina... nunca tem fim se tudo é assim nem sei o que estou esperando nem sei o que estou querendo nem sei a última frase... por isso desencano às vezes...
Para poder respirar...
Para poder viver uma vida normal...
Como todos que vejo passeando todos os dias pelo calçadão da praia...
Se não consigo...
É porque tropeço... e cometo exageros e espero que no outro dia tudo fique bem...
Mania idiota de quem já tem mania de depressão... manias pegam e não largam mais...
Meu cinzeiro vive cheio e esvazio continuamente...
Fico feliz pela blusa que me dispensa o sutiã... muito obrigada por uma alegria... mas estou esperando alguma coisa...
Tô de trouxa na mão esperando alguma novidade...
Se me cutucarem no ombro desejo uma semana tranqüila e disfarço que não é comigo...
Vou dormir de bruços e esperar o que vem no dia seguinte...
É assim que funciona todos os dias...
Aprendi que esperar é uma forma...
E nem sei se ponho a mão esquerda ou direita no queixo...
Sei lá eu...
Eu sinto muito ... mas ignoro muitas coisas...
(Célia Demézio)

O MUNDO VIVE...


Respirando alto...
Grita bem alto... como tivesse tentando ouvir ...
Mas não deve nada a ninguém... por isso mundo é mundo...
Porque muda a todo o momento, e se recolhe de repente...
Não põe pingos nos is... não joga conversa fora...
Deitado na cama... bebendo numa mesa de bar...
Mundo é mundo... e não deve nada a ninguém....

(Célia Demézio)

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