sexta-feira, 22 de junho de 2007

O CAMINHO DO CINEMA


A televisão ligada. Luz e imagem.

No canto direito o braço de um violão.

Uma bolsa desfocada atrás.

À esquerda o som, a mesa, à direita,

o armário.

Mosquitos invisíveis.

Alguns versos, saem palavras.

Um papel jogado, ao lado um abajur.

Unhas compridas e sujas.

Cigarro aceso na mão esquerda

Entre os dois dedos levantados para cima.

Paz e amor.

Coisas.

Parede cinza, janela fechada.

Nuvens de fumaça.

O som da Bethânia anos 80.

Som de fundo, a trilha sonora...

Todos os caminhos, todos.

(Célia Demézio)

quarta-feira, 20 de junho de 2007

LUGAR-COMUM


bastou arrancar plumas, pompas
pesadelos
pelos
pele
arquitetura de esqueletos
fazendo fogo
com o roçar dos ossos
bastou cravar no desalinho
o fio tênue e reto do compasso
delineou-se um outro tecido
cravado pela distância
o que se perde é o que não se é

LOTADO DE CONTRADIÇÃO E ARBITRARIEDADE O HUMANO




Se eles querem assistir ao menininho sem braços e pernas na tevê, ou anomalia outra qualquer como espetáculo, deixem que eles assistam, porque assim não reconhecerão nada além do grotesco e não reivindicarão por nada além do grotesco.
Se vocês acham que existe uma inversão de valores, saibam que estão todos vocês enganados. Para eles não há valores, porque retiramos isto deles. E como não há valores, não há como reivindicar por eles.Assim o mundo deles é uma ilusão construída com o propósito de mantê-los a nós submetidos. Porque o mundo real não lhes pertence. Nós somos os donos do mundo, nós legislamos e ditamos o que é certo e o que é errado. Porque eles nada sabem além do simulacro que inventamos para eles.
A verdade está conosco, mas eles preferem acreditar nas mentiras que contamos para eles. E eles são felizes em sua ignorância. E eles nos agradecem por serem felizes. Porque nós demos a eles algo para acreditar. Porque nós retiramos deles o peso do livre-pensar. Porque não há livre-arbítrio, mas isto eles também não sabem.E quando chegar o dia em que nós não mais precisaremos deles, eles serão exterminados e não saberão nem mesmo por que. Porque o mundo deles não é real, mas um simulacro grotesco do nosso mundo, que inventamos para salvá-los do peso de suas próprias consciências. Diremos isto a eles e eles nos agradecerão. Porque eles não têm consciência. Porque eles foram destituídos de sua própria alma. Porque, em verdade, são eles meros mortais.
Mas quem são eles? E quem somos nós? Somos os mesmos. E desses mortais, o humano. Nós, contudo, somos imortais.

(Rodrigo Novaes de Almeida)

sexta-feira, 15 de junho de 2007

MÁQUINA ALGUMA DE POUPAR TEMPO




Máquina alguma de poupar trabalho
Eu fiz, nada inventei,
Nem sou capaz de deixar para trás
Nenhum risco donativo
Para fundar hospital ou biblioteca,
Reminiscência alguma
De um ato de bravura pela América,
Nenhum sucesso literário ou intelectual,
Nem mesmo um livro bom para as estantes
- apenas uns poucos canto
vibrando no ar eu deixo
aos camaradas e amantes.

(Walt Whitman )

ESPAÇO CURVO E FINITO

Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
(José Saramago) Gentil colaboração de Lee

ROBSON QUALÉ?


Navego nos mares,

Neste vai e vem,

Nestas dores felizes,

Nisto tudo.

Passo torta e balançada

Na pancada da onda.


Quase me afogo.

Todos os dias tento nadar,

Dizem ser muito simples.

Na areia da praia

Os peixes fritos

Borbulham na frigideira.

E eu navego.


Um porto de entrada

Escrito não tem saída,

É o que nos avisa.

Sexta-feira de tênis,

Sábado ando descalça.

Eu navego.

A bússola ao oeste

Perdida. Ninguém se acha.

Do mar vai e vem a sensação

Do eterno.

(Célia Demézio)

quarta-feira, 13 de junho de 2007

O RISCO


Aos poucos bordei a toalha. As flores nasceram frágeis e cresceram em ponto cruz no retângulo. Um pano branco passivo no tempo. Ao fundo a música de Bizet tocava as batidas dos saltos de Carmem. Um touro passou por minha sala. Acompanhei com o olhar o quadril elegante do bailarino no dourado das suas calças. Não atendi a chamada do interfone. Meus lábios entreabertos olharam o vazio. Agora eu terminara de bordar. Pouco restou da vida que brilhava lá fora. A árvore da felicidade na sala insistia em crescer, apesar do pouco que eu fazia por ela. De vez em quando me lembrava de regá-la. Peguei a linha amarela para guardar e não me dei conta da pressão na panela. O tomate congelava na geladeira, assim como os legumes, o queijo e os líquidos. Fora descongelada no último final de semana, mas eu não me entendia com a graduação na qual deveria animá-la. Seria perto do dois ou perto do off? A segunda-feira pegou-me de jeito e fiz dela o possível. Não foi hoje que marquei de ir ao cinema? Como passa o tempo! Hoje não sou mais aquela lá que marcou o compromisso. Hoje não quero ir ao cinema. O colorido da flor estampou meu rosto. De manhã li um trecho da Paixão Segundo G. H.. Descobri outra ponta que preciso bordar. Acho que está tudo em seu lugar. Quero sempre estar aqui e nunca estar lá. Vou desligar a panela de pressão, para não causar acidente. Apesar do ruído do trânsito, percebi o devorador de mulheres em decomposição. Ultimamente o vento tem me atrapalhado. O peixe, o cristal e a peça arqueológica à minha esquerda esperam-me.


(Zezé Goldschmidt)

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Vida me carrega no ar como um gigantesco abutre







(...)
minha dor é um anjo ferido
de morte
você é um pequeno deus verde
& rigoroso
horários de morte cidades cemitérios
a morte é a ordem do dia
a noite vem raptar o que
sobra de um soluço

SEM GELO, POR FAVOR!







“ De algum modo, o mundo tinha ido longe demais,
e a bondade espontânea jamais poderia ser tão fácil.
Era algo por que teríamos de tornar a batalhar”.
( Hollywood – Charles Bukowski)





Éramos quatro doidões, sabia que algo dentro de mim me sacolejava a alma. Minha boca super seca, e podia sentir a tensão subindo pela minha espinha. Uma espécie de viagem para o inferno. Só posso me lembrar das casas deixadas pra trás, um vento correndo em meu rosto, a máquina a 200 por hora. Maurão acendeu o cachimbo de crack, enquanto um negão de bermuda, que falava um monte Caralho! Onde foi parar?!, ao meu lado catava pedrinha por pedrinha em baixo do banco traseiro. Passei a mão no nariz, e senti aquele liqüido frio descer até a ponta do meu lábio superior. Aquelas pedras me anestesiaram emocionalmente e eu só podia estar vendo era um filme super 8, pois tudo me parecia P&B. O bom e velho Joe Cocker dos anos 70 ao vivo na maior altura, no toca-fita do Palium vermelho zerinho do Maurão. Aquela rouquidão misturada a ácido lisérgico arrepiou os cabelos dos nossos dedões dos pés. Logo depois o negão abriu a porta do carro, e aproveitei para esticar as pernas. Naquele instante o tempo girava em círculos para nós todos. Daqui a alguns instantes já estávamos em frente ao Glacial Bar Night, uma boate que se pode dizer na hora “chiquérrima”. Entramos com as mãos nos bolsos, olhos avermelhados, rostos e luzes pareciam os enfeites da casa. Lili, a chilena, que tinha olhos de gato, roupa indiana e tatuagem de florzinha no tornozelo, saiu do carro do Maurão, gritando naquele sotaque portunhol que legal! Entrou pulando, logo paquerando o barman, e me veio aquela pontinha de ciúmes latejando dentro do peito, mas mudei a direção do olhar, e agora estava simplesmente vendo um casal tomar choop. Se eu girasse mais um pouco a cabeça, iria vomitar o churrasquinho que a gente tinha comido no boteco Tubarão, lá mesmo no carpete verde do Glacial Bar. Quando dei conta Maurão estava pegando o garçom chefe pelo colarinho gritando na cara dele Eu sou um idiota, repita! Fala! Tô pagando! É dinheiro que vocês querem caralho! Pois eu tenho dinheiro! O garçom fingindo não estar incomodado com a situação, mas ao mesmo tempo cagando de medo de morrer estrangulado, respondeu prontamente Eu sou um idiota. Maurão largou o idiota, e ficou batendo no balcão gritando que podia tudo. O garçom chefe ajeitou sua gravata borboleta e sorriu amarelo, dando um sinal a um outro garçom, subordinado a ele, para que ele se mexesse o mais rápido possível e nos desse uma mesa. Maurão tinha muita grana e uma carência muito maior. Seu irmão era campeão de judô, enquanto ele queimava, cheirava, bebia e até enfiava no cu o dinheiro da Academia Olimpíadas de Los Angeles. Lili, chilena, bebia um monte, viajava, ria um monte também. Eu até que gostei da nigth birinight. Não me lembro o que comemos, bebemos e nem do que falamos naquele bar de classe média médiazinha, mas sempre gostei de parques de diversões.
Só me lembro do vento em minha cara, e nós no carro novamente, do Joe Cocker e uma latinha de cerveja quente na minha mão. O resto do aldol com vodka deu seu recado, olhava as montanhas que tinham ficado no lugar dos edifícios, e pareciam que elas faziam um certo movimento, um ziguezague linear e gostoso. Ouvi vozes, o céu escuro, as milhares de estrelas e o som de coral de grilos, sinfônico e solitário. Os grilos seriam excelentes músicos, inovadores, tranqüilos, e não precisariam da fama para se sentir realizados. Viva os Grilos! Mas, nós, comemos a plantinha a bilhões de anos atrás, construímos a sociedade, de paz, de guerra, de amor, de cartões magnéticos, e outras coisas mais que virão nos próximos 10 mil anos, com toda certeza.
Uma enfermeira bateu na minha cara, e senti aos poucos que estava viva, pois as luzes artificiais me surgiram como spots, e naquele brilho frio pude ouvir vozes conhecidas, na verdade estava acordada, só um pouco viajandona com o cheiro de éter. Ouvi o Maurão falando com aquele tom melancólico de quem está de bode depois de detonar vários produtos prejudiciais à saúde. Isso que era foda, ele no final das contas era apenas uma bichona, recalcado e chorão. Lili estava ao meu lado, com os cabelos soltos. Seus olhos tinham água, e com seu portunhol chileno me disse Pô! Pense que voce irse para lo sueño eterno, caralo! Dísete major miedo na gente!
Eu não consegui falar nada. Aquela sonda enfiada na minha mão me deixava deprimida. A alegria de viver dura pouco, e amarramos nossas frustrações em nosso pescoço, até que resolvemos gravar um After Advice e dizer aos nossos amigos, não bebam, não fumem, não cheirem, não amem...


(Célia Demézio)






domingo, 3 de junho de 2007




As dores do outro não são minhas.
É meu o mar que vejo e o sol que me brilha.
As dores do outro se derramam em mim
E acolho o Deus que existe no outro em mim.
O outro em mim não me pertence e vergo meu ser
Para entender em mim a dor que dói sem doer.


(Zezé Goldschmidt )

VAMPKLAUSS III


Eu sempre acho uma surpresa presa no fundo do baú.

As janelas estão para o alto

E a fumaça do cigarro navega no horizonte.

Teleplay não me diz muita coisa,

Já estou muito cansada para dormir.

Volta ao mundo num balão,

Porque o mundo está de cabeça para baixo.

Levanta Lázaro!

Minha ingenuidade virou estupidez: tudo tem seu preço.

Fora as baixarias do Chacrinha nada se cria.

Tudo se copia.

Corrente de oração para os desesperados.

Depois das sete não estarei, ficarei contando carneirinhos,

Enquanto o lobo não vem, enquanto não sou de ninguém.

Enquanto as grades forem de ferro,

A minha estará azeda, meu bem.

Para cortar os pulsos e você me sugar.

Eu vou virar vampira,

Sem o dente do juízo para me aconselhar.


(Célia Demézio)
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