sábado, 22 de março de 2008

O ATRASO


O canto da televisão avisava a hora marcada. Cobria um pedaço do terno do entrevistado. Tentei marcar as horas no relógio digital. Mas não conseguia alcançar a hora exata. Por milésimos de segundos estava atrasada. Fiquei com o dedo nos botões, prontos para acertar o tempo. Um toque no botão das horas, dois toques nos botões dos minutos. Por questão de distração fiquei dois minutos atrás. Quando tentei acertar, adiantei-me para o dia seguinte... De qualquer forma, é uma forma de atraso... Passei por alguns segundos, da quinta para sexta-feira... Logo tratei de voltar os ponteiros para trás. Tentei alcançar o horário marcado no canto esquerdo da TV. Mas nunca consigo ser pontual com o que vejo... Por milésimos de segundos muita coisa já passou bem na frente do seu nariz... É cruel essa corrida contra o tempo...

A entrevista acaba: "Obrigado, mas nosso tempo esgotou"...
Depois de uma hora, vieram os créditos finais...
(Célia Demézio)

domingo, 9 de março de 2008

MISSÃO COMPRIDA


Você conseguiu tudo na vida:

uma grande barriga

bem alimentada,

uma amante infiel

uma esposa comportada

carro do ano

filhos rebeldes ao teu jugo tirano

casa própria, emprego com crachá

um sítio em Visconde de Mauá

um ufanista amor pelo país

tudo como manda o figurino(de Paris).

E morrerá, cumprindo a sua parte,

de tensão ou de enfarte,

de repente,

sem nem ao menos de longe perceber

que podia ter sido diferente.


Las cortinas y Mi monstro


Me dan miedo las cortinas, en realidad no son las cortinas sino lo que hay detrás de ellas, aquello que no vemos pero imaginamos. Siento un temor especial cuando para emprolijar la casa cierro la cortina de la ducha, la única que existe en casa, escondiendo baldes, secadores de piso, trapos, lavandinas, detergentes y otras cositas. No puedo evitar pensar que hay alguien escondido allí. Y así fue que temiendo sin sentido sucedió lo que mi temor deseaba. Fue unas de aquellas defecadas irrepetibles, esas que complementan un par de días sin nada, el almuerzo del domingo, y las porquerías que comí el sábado porque salí de joda y me chupé todo y después me comí todo para rebajar mi soberano pedo etílico. El caso es que al correr la cortina me lo encontré, era un monstruo literal y se parecía a mí, pensé por un segundo que estaba llegando al final de mis días. No fue así, después de extensas conversaciones y sin otra que asumir mi exposición escatógica llegamos a un acuerdo, de a poco nos hicimos amigos, tan amigos que hoy me atrevo a llamarlo con cariño: Mi bien amado monstruo.


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