domingo, 20 de julho de 2008

OS SENTIDOS DA PAIXÃO




Medo da multidão e dos espaços vazios.
Medo dos encontros e desencontros.
Medo da janela aberta e da porta fechada.
Medo do escuro e da luz na tela da TV.
Medo dos ruídos e da harmonia dos ensaios de orquestras.
Medo da liquidação e dos preços altos.
Medo do frio e da água fervendo no fogão.
Medo das expectativas e da falta de esperança.
Medo da euforia e da derradeira melancolia.
Medo do esquecimento e das lembranças.
Medo do assalto e das câmeras de segurança.
Medo das alturas e do fundo do poço.
Medo da violência e dos slogans de solidariedade.
Medo do tédio e da quebra de rotina.
Medo do próximo e de mim.
Medo das forças ocultas e da objetividade.
Medo da parede pintada e das cinzas dentro do cinzeiro.
Medo das superstições e do bom senso.
Medo da morte e da ressurreição.
Medo da dor e da surpresa alegre no fim do dia.
Medo do mal e dos planos de saúde.
Medo da tecnologia e das cidades de interior.
Medo do mar e dos desertos de areia.
Medo de se atrasar e de furar a fila.
Medo do espelho e dos livros na estante.
Medo de ter medo.
Medo do sucesso.
Medo do fracasso.
Medo por todos os lados...
Agitando corações.

(Célia Demézio)
Poema inspirado no artigo "Sobre o Medo" de Marilena Chauí, incluído no livro "Os Sentidos das Paixões" (Companhia das Letras - 1990)

sábado, 19 de julho de 2008

CONTANDO AS HORAS


"Neste grande imenso pet shop/A cultura é um sabão/Artigo de fim de estoque/Aproveite a ocasião/Mundo mundo mundo cão/Mundo mundo cão" (Zeca Baleiro/Sérgio Natureza)


Enquanto a semana passa, uma tosse incrível me pegou de jeito. E contrariando o bom senso que ronda nossa vida feito uma sombra grudenta, fumo mais um cigarro para distrair minhas emoções. Tenho bebido bastante, calibrando meu tato e escorregando no chão do banheiro, passo em frente às vitrines, zanzando feito uma barata tonta e acho que estou sob suspeita. O vigia vem na direção contrária e eu desvio o olhar para uma blusa muito bonita, numa loja muito bonita, com vendedoras muito bonitas e fico ouvindo funk dos anos 60 pelo MP3. Em casa fico brincando de instalar e desinstalar programas e espero pacientemente que o mouse destrave e saia do canto da tela. Somos tão tolerantes com a tecnologia e ficamos de boca aberta, banbando feitos cachorros doidos, com as propagandas na TV. Mas fico parada, desanimada, sem energia, sem poesia. Minha produção anda em baixa. Só finjo que estou vivendo. Hoje me perguntaram minha idade. Momentos burocráticos, formais e tentativas de autocontrole. Respondi 41. Nunca tinha dito esse número antes. Mas soou bem. 41...até o embriagante 51 falta mais alguns copos. Mas nem vale a pena lembrar desse fato, como de outros tantos. Mas temos uma mente traiçoeirazinha e sempre topamos o joelho na mesinha de centro. E como dói... Que tal falar sozinho? Algum pensamento solto que escapa pela boca a fora? Alguma maldita besteira que nos escapa em frases ou em palavras.Há algo de prazeroso na loucura, por isso não se olha muito nos olhos de alguém. Há o medo da velhice, pela sua crueldade em nos deixar sem rugas, fracos e sem dentes. Mas a espero, como um alívio a todas as ansiedades e medos. A morte vem chegando mais perto e a vida se torna um apanhado de falsas lembranças e velhas tristezas, medos inúteis e aposentadorias por tempo de chatices. Mas sobre esse último tópico não me arrisco a explicar muito. Um estudo de sociologia talvez responda como, através dos séculos, quando o ser humano pára de contribuir para a sociedade sacana, mentirosa e assassina. Temos que correr atrás porque o mundo ficou speed. A base de drogas sintéticas e leis de trânsitos. E esse mundo está na tela do computador, e tentamos ver quem está do outro lado. Mas chega o tédio e tudo pode virar apenas um grande vírus. Cavalos de Tróia prontos para se abrirem e nos destruir em milésimos de segundos. Uma assistência técnica formata e volta tudo outra vez, a mesma memória, os mesmos documentos e as mesmas armadilhas. E tudo vai correndo na maior maravilha, correndo como nunca correu antes, sem a menor chance de correr uma lágrima em nossos olhos.

(Célia Demézio)
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