terça-feira, 29 de maio de 2007

A máscara


Eu sei que há muito pranto na existência,
Dores que ferem corações de pedra,
E onde a vida borbulha e o sangue medra,
Aí existe a mágoa em sua essência.

No delírio, porém, da febre ardente
Da ventura fugaz e transitória
O peito rompe a capa tormentória
Para sorrindo palpitar contente.

Assim a turba inconsciente passa,
Muitos que esgotam do prazer a taça
Sentem no peito a dor indefinida.


E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca
A humanidade ri-se e ri-se louca
No carnaval intérmino da vida.

(Augusto dos Anjos)

"Eu não tenho enredo. Sou inopinadamente fragmentária. Sou aos poucos. Minha história é viver".


(CLARICE LISPECTOR) Mais uma gentil colaboração de Lee...

domingo, 27 de maio de 2007

A GAROTA QUE QUERIA SER BEAT


Chove lá fora e aqui faz tanto frio...Peguei a garrafa e tomei um gole de conhaque pelo gargalo. Procurei me concentrar mas não conseguia ter nenhuma idéia original. Tomei mais um gole de conhaque. É, as coisas estavam começando a ficar complicadas. Liguei para o editor e ele estava em reunião. Liguei de novo e ele continuava em reunião. Na terceira ligação a secretária me disse que o editor havia mandado eu me fudê. Bem, em resumo era isso mesmo que eu tinha entendido, antes da secretaria desligar o telefone na minha cara, e eu pudesse lhe dizer, muito obrigada. Eu estava atrasada e o negócio editorial possuía suas normas rígidas. Quinze páginas em branco, e só faltava preenche-las com alguma estória impressionante, fascinante ou mesmo interessante. Pensava em uma história simples, porque afinal de contas, não iriam me pagar tanto. Mas, nem o simples se alcança tão facilmente. Comecei a picotar papeizinhos enquanto tentava raciocinar com o feixe do meu sutiã. O tempo passou e nada. Devo ter picotado justamente quinze papéis, pois havia um morrinho branco à minha frente. Espalhei o morrinho branco como fosse uma espécie de deus destruindo o mundo com minhas próprias mãos. Passei três horas olhando para as minhas unhas e nada. Na minha gaveta encontrei uns pincéis atômicos. Comecei a escrever nas paredes: “era uma vez um burro chinês”, “oito horas de sono”, “uma colher de açúcar”, “legalize já”, “coca-cola é isso aí!”. Queria ter uma idéia com aquela loucura toda. Mas nada. Resolvi então mandar tudo a merda e viajar para São Luís do Maranhão. Mas as coisas nunca são o que a gente deseja. Isso faz parte do Mundo. É simples, você se fode sempre. Antes de viajar o meu editor me ligou pedindo que eu lhe devolvesse o dinheiro que ele me pagara adiantado, pois tinha contratado um escritor beatnic para a sua coluna “A Hora e a vez dos Marginais”. Mas isso não me afeta, em nada. Quando cheguei em São Luís do Maranhão, logo no terceiro dia, caí de cama com uma intoxicação aguda. Foram os malditos caranguejos. Eu havia comido pelo menos uns quinze e os filho-da-puta me detonaram!

(Célia Demézio)

QUAL É MESMO O SEU NOME?


De toda a grana que eu havia ganhado nos últimos dois meses restava apenas uma nota de vinte e uma opção; Ir até o cinema assistir o último filme dos irmãos Ethan e John Cohen. “O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ” era o filme em questão. E para sobrar algum trocado, decidi que iria até o cinema onde o filme estava em cartaz a pé mesmo. E para o meu desespero o tal cinema ficava dentro de um shopping no centro de Santo André...
Eu já manifestei inúmeras vezes a enorme ojeriza, o asco e o ódio que eu sinto por shoppings. Mas sempre que posso eu aproveito para descer o cacete nesses templos de adoração à estupidez humana. Neles, onde poesia não mofa porque lá, nunca ela conseguiu existir. Tudo de plástico. “Fake”. Engessado. Mas enfim; Eu não tinha opções. Então quando deu seis horas da tarde, eu enfiei minha calça preta, meu tênis All Star, vesti a minha camisa do The Clash, peguei a jaqueta jeans e iniciei minha caminhada rumo ao templo dos imbecis, atrás de um filme de qualidade que me desse alguma alegria. Resolvi levar também um livro do Baudelaire de poemas em prosa. Julguei que talvez, viesse a ter alguma utilidade...
Vinte e cinco minutos depois, eu já estava praticamente do lado da porra do shopping e então pensei; “Não. Careta não vai dar pra encarar esse lugar não!” E fiz uma parada estratégica num boteco que ficava bem em frente ao shopping.
Tomei uma cerveja e um conhaque vagabundo. Também comprei um maço de cigarros Camel, tirei um e dei umas boas tragadas. Depois, tive as minhas leituras interrompidas pelo dono do bar (aparentava) que sei lá porque, e contou que morou em Barcelona dois anos e que lá os catalãos boicotaram o consumo de gasolina nos postos locais devido a um inoportuno aumento. Fui Cortês.
Ouvi a história toda, sem mandar o cara ir tomar no cu e me deixar em paz... Como disse; Deixei que me contasse enquanto terminava de tomar pelo menos aquele conhaque. Terminei. E quando troquei a nota de vinte, prometi pro cara que voltaria. Balela. Entrei no Shopping.
Puta que Pariu!!
Enquanto procurava a porra do cinema e todos olhavam para mim assustados eu pensava se não seria melhor desistir de toda aquela “radicalidade” e gastar o resto do dinheiro no bar do catalão. Não desisti.
Faltavam apenas dez minutos para começar o filme e meu amor pelo cinema falou mais alto. Fui até a bilheteria onde, separada por um grosso vidro à prova de balas e de qualquer tipo de contato humano, uma mocinha de cabelos presos junto a um coque que a envelhecia pelo menos uns quarenta anos, me informou que “... A sessão das sete horas já esta lotada senhor...” Ou seja; Eu teria que fiar esperando até ás nove horas para ver o filme. Duas horas dentro do shopping! Aí virou questão de honra... “Vou ficar e ver essa merda e pronto!” – Resolvi.
Voltei a bilheteria, comprei o ingresso, descolei uma pilastra para me encostar e agradeci ao diabo por ter trazido o livro para ler durante àquelas horas. Já que nada parecia me chamar à atenção aquele lugar do caralho, acendi um cigarro e enfiei a cabeça nas paranóias em prosa do Baudelaire. E quando eu achei que permaneceria por ali entretido com aqueles poemas, apareceu aquela que me faria mandar à merda o francês genial e genioso...
Chegou na bilheteria um tanto quanto esbaforida. Comprou ingresso e imediatamente saiu do guinche cavoucando a bolsa até conseguir tirar de dentro, um telefone celular. Fez uma ligação. Não teve retorno e isso a deixou puta da vida; “Merda!”. Reclamou.
Nesse momento, eu, que já tinha a minha atenção voltada para ela a observei melhor e notei que seus cabelos curtos pintados de vermelho se realçavam ainda mais dentro daquele exótico visual devido a uma linda tatuagem tribal, localizada na parte de trás do seu pescoço. Usava uma jaquetinha de couro marrom e uma calça jeans deliciosamente agarrada. Tinha uma bunda linda! Um corpinho bonito e um rosto que, se não era tão lindo pelo menos completava bem o conjunto de toda aquela obra. Era gata sim.
E seu jeitinho de perdida no mundo, alienada, aquele andar desgrenhado, o barulho do salto das suas botas, a sua ansiedade em tentar se comunicar com o babaca que estupidamente insistia em não atende-la e todo contraste criado pela aparente cara de “patricinha” que ela forçava, criavam um encanto todo especial naquela mulher. Lá pela quinta vez que tentou ligar para o otário, nossos olhares se cruzaram. Naquela hora eu já estava sentado no degrau que dava acesso as salas de cinema.
Um cara com roupa de garçom do Mac Donald’s me perguntou se eu poderia me levantar dali e eu disse que não. Aí ele foi buscar outro que parecia gerente de sorveteria, vestido com uma camisa de manga curta e uma gravata de crochê preta, que me fez a mesma pergunta. Eu mandei os dois pra puta que pariu! Ela riu.
Começamos a trocar olhares e então eu a vi mascando um chiclete freneticamente com cara de puta enquanto me olhava por cima do ombro. Saiu andando e não precisava de mais nada...
Quando o garçom do Mac Donald’s e o gerente de sorveteria vieram em minha direção com outro, que usava um terno de funcionário de funerária, eu não esperei que ambos me fizessem a pergunta pela terceira vez; Me levantei, passei por eles e fui direto atrás dela. Agora, ela rebolava pra caralho e olhava para trás com cara de desafio sorrindo. Eu, tal qual um cachorrinho, andava atrás. Quando cheguei perto ela, da porta do banheiro feminino me olhou e sorriu. Não afinei, não!
Entrei com tudo no banheiro das mulheres. Limpo! Nojentamente limpo! Bem diferente daqueles em que eu costumava vomitar as minhas noitadas. Ela me olhou através do espelho com as mãos apoiadas na pedra de mármore que formava a pia do banheiro. Riu de novo. Eu não...
Cheguei por trás, a abracei encoxando-a e enchendo as mãos nos peitos dela. Tasquei-lhe a língua na orelha, deixando minha mão escorrer por dentro da calça dela. Achei! Enfiei o dedo na buceta dela. E ela me respondeu rebolando a bunda gostoso no meu pau, que, de tão duro latejava por trás da cueca. Depois, ela se virou e enfiou a língua na minha boca, puxando os meus cabelos, iniciando um beijo nervoso. Quando tentei joga-la em cima da pia ela não deixou:
Me empurrou, beijando-me até eu entrar em uma daquelas cabines. Quando entrei, ela se ajoelhou e ali mesmo chupou minha rola como ninguém jamais havia chupado antes, me fazendo gozar até no teto! Quando tentei virar o pau para gozar nela, ela se preocupou em não sujar a jaquetinha e se protegeu usando a cara. Não deixei por menos e a enchi de porra até a última gota!!
Quando terminei, estava literalmente de pernas bambas. Ela aproveitou e meteu as mãos no meu peito empurrando-me e me fazendo cair de bunda na privada. Depois me olhou altiva, vitoriosa com a cara melada e cheia de porra e sorriu definitivamente. Com a mão direita, eu fiz o sinal de paz e sorri também. Ela saiu, lavou o rosto e voltou para o saguão do cinema.
Eu me levantei peguei o livro do Baudelaire que eu havia largado em cima da pia e voltei correndo para a cabine. Rasguei uma folha e me limpei (Sabia que ele teria alguma utilidade). Vesti a roupa e quando abri a portinha da cabine, duas garotas deram de cara comigo e ficaram assustadíssimas:
“Qual é mina?! Preconceito mais besta...” – Falei olhando para uma delas enquanto eu saia do banheiro.
No saguão ainda encontrei a matadora do banheiro. Não nos falamos. Ela foi para a fila dela ver o Brad Pitt e eu fui para minha ver o Billy Bob Thorton.
Cada um tem o superstar que merece...


(MARCELO MENDEZ )

quinta-feira, 24 de maio de 2007


"Como será possível acreditar num Deus criador do Universo, se o mesmo Deus criou a espécie humana? Por outras palavras, a existência do homem, precisamente, é o que prova a inexistência de Deus."


(José Saramago)

SE



se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra


eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto



ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio




daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...



(Alice Ruiz)
olhar o mesmo olho

com outros olhos
em outro olhar


o mesmo olho
nos mesmos olhos


o olhar do outro

de olho





(Alice Ruiz)

quarta-feira, 23 de maio de 2007

PERCEPÇÕES


Ande um dia com a pele do outro

conviva

deixa a alma ser um pouco o outro

e arda

queime

desespere

mas apazigue

o espontâneo fere

mas só assim

se existe



O Poeta é a Mãe das Armas




O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral —
alô, poetas: poesia no país do carnaval;
Alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.

O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval (alô, malucos),
é traidor da poesia: não vale nada, lodal.

A poesia é o pai da ar
-timanha de sempre: quent
ura no forno quente do lado de cá,
no lar das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
poesia poesia poesia poesia!

O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso: ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a
r: em primeiríssimo, o lugar.


(poetemos pois - Torquato Neto) /8/11/71 & sempre.

VAMPKLAUSS II



Nada pode reunir o mundo num só!

Se olhos para os lados, os cantos se escondem entre o dia e a noite.

Senão existe mais nada,

Não é mais o inferno, não é o céu.

Se divirta com a vida e aperte o acelerador.

Está acabando esta velha história de HQ, dos meninos de colégio.

O brilho dos objetos e a cara pálida de purpurina.

A Festa do Anjo Exterminador.



(Célia Demézio)

terça-feira, 22 de maio de 2007

ÓTICA


Lugares pequenos... Os meus sonhos são bem maiores que o mundo...

Toda vida é mais curta que o tempo... Vou caminhar contra o vento...

Chegar elegantemente atrasado...Beber mel e veneno em uma boca...


Libertar-me... Prender meus olhos ao encanto de um amor profundo...

Talvez haja alguma tristeza nos labirintos escuros desse pensamento...

Eu vou sorrir... Vou fingir que a tal felicidade não é uma risada louca...


Juventude é uma beleza eterna na lembrança... Brincarei até a tarde...

Guardarei as memórias... Esconderei a dor nas almas dos brinquedos...

Vou sangrar o sol... Gosto da chuva leve molhando os meus cabelos...


Fecho os olhos, não gosto deste escuro... O céu, distraído se encarde...

As nuvens são levadas pelo vento que passou leve entre meus dedos...

Tenho uma formiga nas mãos... Há arrepios que nunca ouso contê-los...


Vou soprar de volta esse vento que me desequilibra... Só um assovio...

A distração é mesmo uma forma de magia... Vêem encantos em tudo...

Nesse mundo tão distraído tenho um sonho que teimando ainda existe...


Canto as canções esquecidas... Esquecer a bomba... O fogo no pavio...

Quero gritar na missa... Vou contar meus segredos sujos a um mudo...

O silencio é para sábios... Dançam os alegres... A musica é tão triste...


Descansar... Os meus pés doem tanto, vou correr em direção inversa...

Os calos nas mãos não me deixam sentir a textura fina e suave da flor...

Lembrei-me da ultima primavera... Os perfumes de um dia ensolarado...


Fazer festa... Comprar os amigos, vender o dinheiro e trocar conversa...

Aniversario... Vou gastar todo o meu salário e me alegrar com toda dor...

Vinho... Goles de vinho... Quero sentir vivo o meu coração anestesiado...


Taças quebradas, tontura, vomito e gargalhadas... A vida é uma piada...

Cacos refletem os raios de luz, mas meus olhos permanecem no escuro...

A embriagues distorce o mundo ou apenas a visão?... Não sei o correto...


As loucuras só não tem fim quando estou sóbrio... Mais uma gargalhada...

Eu vejo no fundo do poço ou do copo uma sombra rala deste tal futuro...

A verdade embriagada de enganos, cercada por altos muros de concreto...


Sinto-me seguro aqui dentro de mim... Não podem me tirar daqui agora...

Foi frio e solitário... Ainda não entendo o silencio e os gritos da parede...

Dormir agora... Acordar amanhã bem cedo... O trabalho que me aguarde...


Ligo meu despertador... Tomo um copo d'água... Está tudo bem lá fora...

Sinto um gosto amargo na ponta da minha língua... Há uma outra sede...

O coração às vezes bate violento e dói... Me dói mais quando não arde...


(Vidamorte)

segunda-feira, 21 de maio de 2007


Acho-me relativamente feliz

Porque nada de exterior me acontece...

Mas,

Em mim, na minha alma,

Pressinto que vou ter um terremoto!!!!!!!!!


(Mario Quintana) colabolaração de Lee

sábado, 19 de maio de 2007

VAMPKLAUSS


As mesmas folhas de sempre,

Tiradas de um plástico.

Escrevendo, escrevo, obedecendo as linhas,

Os parágrafos e as moedas.

No dia seguinte tudo é ressaca.

Tirar do fim do túnel, tudo que começa.

Uma bomba estoura enquanto fico comendo miolos de frigoríficos.

À meia-noite sinto um peso de tanto alívio.

A gente já sabe dos almoços aos domingos: frios.

Um dia após o outro tem sabor de alho.

(Célia Demézio)






"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão."

(Caio Fernando Abreu) Gentil colaboração de Lee...

DOS POEMAS DESNECESSÁRIOS


Mando meus desmantelos

meu coração intranqüilo

minhas faltas de data

minha pouca memória

e o melhor de mim

mando o que me navega

e os outros tráfegos

mando o que foi escrito com pressa

e outras urgências

mando o louco, o torto, o cético, o romântico

mando o explícito e desvairado

mando a música, a mais bonita

mando a orquestra, a banda

e uma voz rouca e outra ainda silenciosa

e digo que você me atravessa

como uma lança

e se aloja nos meus sentidos








O que voce vai dizer dos meus olhos que te miram...



da minha boca que te sussurra...



da minha mãos que te acaricia...



da minha cara impassível no meio de quase nada...



o que voce vai dizer das minhas luvas vermelhas...



vermelhas como minhas garras...



das minhas coxas displicentemente apaixonadas pelas tuas...



do meu sexo cheirando a flor, dos meus cabelos entrelaçados nas tuas mãos, ah, as tuas mãos!


suspiro!...fundo...


(Lee..... )

sexta-feira, 18 de maio de 2007

ASSIM VEJO A VIDA



A vida tem duas faces:

Positiva e negativa

O passado foi duro
mas deixou o seu legado

Saber viver é a grande sabedoria

Que eu possa dignificar

Minha condição de mulher,

Aceitar suas limitações

E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.

Nasci em tempos rudes

Aceitei contradições

lutas e pedras

como lições de vida

e delas me sirvo

Aprendi a viver.


(Cora Coralina )

MARGENS


você me disse pra cantar um blues

mas é que eu ando tão desafinado

também não fico procurando um tom

não se preocupe se eu estou errado.

não caiba dentro dos meus olhos

corra todos os perigos ou saia desse filme!

o poeta é um bandido sem eira nem beira

misto de louco e mendigo.

o poeta não cabe no próprio poema

o poeta é um subversivo.

o poeta é um anjo de línguas

a verve do próprio desejo.

o poeta é a festa, o carnaval do poema.

o poeta é o crime atravessando a palavra

o poeta e seus ismos, atímicos delírios.

o poeta engendrando amarras e gemas

pra depois explodir com todas as margens.

o poeta é a puta ocupando as esquinas

o poeta é a fama, o lado sacana, o bobo da corte

o poeta conspira um sonho pro mundo em seus calabouços.


LETRA E MÚSICA: Claudia Ferrari


"O amor nunca morre de morte natural. Morre porque nós não sabemos reabastecer sua fonte. Morre de cegueira e dos erros e das traições. Morre de doença e das feridas; morre de exaustão, das devastações, da falta de brilho"
(Anais Nin)

ENTRE QUATRO PAREDES


"A nossa pena é simplesmente esta: arder em desejo, sem a esperança de sacia-lo". (Dante Alighieri)

"Eu tenho pressa, não minto, mas sinto que estou entre as quatro paredes da vida, e tenho sede meu amor, e guardo tudo, com muito cuidado, dentro de mim". (Sérgio Sampaio.)


Como posso sair daqui sem me machucar, olhar a luz do sol e gritar liberdade? É um lugar pequeno, tão sufocante, tão escuro. Ergo meus dedos e apalpo a madeira. Por vezes me firo com alguns pregos arrebitados. Ai! Grito, mas ninguém me ouve. Acho que grito baixo demais, de certo. Meus dez dedos estão sangrando, e os coloco na boca, chupo aquele doce acre vermelho. Sinto muita dor nas costas, pois o teto é baixo demais. Fico assim, encolhida, meus joelhos chegando ao queixo. Aliás, se abro a boca meus dentes arranham meus joelhos, e sei que também eles estão sangrando. Não consigo me virar, nem para esquerda, nem para direita, e nem para trás. Mas escuto muitas vozes no lado de fora. A vida caminha normalmente, como deus quer. Louças sendo lavadas, som de axé até o talo, outras vezes é o Marlyn Mason e consigo visualizar suas unhas negras arranhando minha cara. Televisão piscando ondas de luz coloridas pela brecha do único buraquinho de meu espaço, tão pequeno e tão desconfortável. Uma pequena brecha, minúscula, na altura dos meus olhos, e assisto uma família correndo pra cá e pra lá, atrás do não sei o quê, porque estou aqui no lado de dentro, e eles estão lá, no lado de fora. Isso vai o dia inteiro até o final da tarde, quando todos se reúnem em seu sofá velho, cheio de pulgas, todos paralisados pela magnitude das quatorze polegadas, que cabe o sucesso, brilho, guerras fenomenais, amores arrebatadores e performances de sacanagens do mundo inteiro. Era hora do jornal nacional e depois a esperança da heroína da novela. Parece que está emocionando a família, pois ouço comentários que lindo! Jesus do céu! Olho pelo buraquinho o sorriso do presidente da república. Meus olhos se enchem de lágrimas, mas não posso nesta minha posição desconfortável expressar merda nenhuma. No momento estou ocupada, e não posso fazer grandes coisas pelo meu país. Quem sabe nas próximas eleições? Assisto, somente. Queria só sair daqui e ver o pôr do sol, estou melancólica e muito pálida. Não que isto me incomode, mas é ruim para procurar emprego. Afinal de contas, a vida continua. Fecho os olhos e imagino estar caminhando numa sala de espera totalmente vazia, um ar condicionado gelando meus ossos, e eu começo a acelerar meus passos para me esquentar. Apenas ando de lá pra lá e pra cá e penso qual a próxima tarefa?, qual a próxima conquista?, qual a próxima derrota?, quando o cansaço derradeiro? Abro os olhos e nada de luz. Todos foram dormir. Tiveram o cuidado, tenho certeza de tirar a televisão da tomada, dar água para o cachorro e trancar as portas. Só ficou o sofá cheio de pulgas. Elas dormem aí mesmo. Todos estão sonhando, com leve sorriso no canto dos lábios e uma baba de fadiga milenar escorrendo no travesseiro. Vou tentar dormir também. Ninguém é de ferro. Quem sabe? Amanhã resolvem me encontrar, como sem querer, lembrarem que tinha muito pó, aqui por esta área. E dizerem saia daqui! Chispa! Me enxotem, me dêem um pé na bunda. Sairei corcunda, com uma hérnia de disco a me atormentar. Sangrando, os olhos fundos e vermelhos com os flashes das luzes do dia, sempre tempestuoso, rumo à rua, seus trajetos, seus atalhos e suas armadilhas. Let’s go, baby!

Célia Demézio

quinta-feira, 17 de maio de 2007

RE - SEIOS







Em cima da mesa ponho.



Debaixo da mesa guardo.



Limpo o pó de todo brilho.



Escolho o feijão que vou plantar olhando a noite germinar.



Ligo o ventilador e saio voando.



Passo férias de duas horas em Paquetá.



Então me lembro que esqueci a chave.



Volto mexendo os dedinhos como se fossem nadadeiras no ar.



É hora de trabalhar!



Um prato apoiado no livro. Sedas vazias. Palitos apagados.



Um nó no fio da televisão.



Reviro gavetas atrás de sutiãs.



Procuro inspiração.




(Célia Demézio )

O CORVO



1 Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste, Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais, E já quase adormecia, ouvi o que parecia O som de algúem que batia levemente a meus umbrais. "Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais. É só isto, e nada mais."
2 Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro, E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais. Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais - Essa cujo nome sabem as hostes celestiais, Mas sem nome aqui jamais!
3 Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais! Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo, "É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais; Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais. É só isto, e nada mais".
4 E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante, "Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais; Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo, Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais, Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais. Noite, noite e nada mais.
5 A treva enorme fitando, fiquei perdido receando, Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais. Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita, E a única palavra dita foi um nome cheio de ais - Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais. Isso só e nada mais.
6 Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo, Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais. "Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela. Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais." Meu coração se distraía pesquisando estes sinais. "É o vento, e nada mais."
7 Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça, Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais. Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento, Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais, Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais, Foi, pousou, e nada mais.
8 E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura Com o solene decoro de seus ares rituais. "Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado, Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais! Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais." Disse o corvo, "Nunca mais".
9 Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro, Inda que pouco sentido tivessem palavras tais. Mas deve ser concedido que ninguém terá havido Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais, Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais, Com o nome "Nunca mais".
10 Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto, Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais. Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais Todos - todos já se foram. Amanhão também te vais". Disse o corvo, "Nunca mais".
11 A alma súbito movida por frase tão bem cabida, "Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais, Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais, E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais Era este "Nunca mais".
12 Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura, Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais; E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais, Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais, Com aquele "Nunca mais".
13 Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo À ave que na minha alma cravava os olhos fatais, Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais, Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais, Reclinar-se-á nunca mais!
14 Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais. "Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais, O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!" Disse o corvo, "Nunca mais".
15 "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta! Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais, A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo, A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais! Disse o corvo, "Nunca mais".
16 "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta! Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais. Dize a esta alma entristecida se no Édem de outra vida Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais, Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!" Disse o corvo, "Nunca mais".
17 "Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte! Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais! Não deixes pena que ateste a mentira que disseste! Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais! Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!" Disse o corvo, "Nunca mais".
18 E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais. Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha, E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais, Libertar-se-á... nunca mais!
(Edgar Alan Poe) - Trad. Fernando Pessoa
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