sexta-feira, 7 de setembro de 2007

EM MEU OFÍCIO OU ARTE TACITURNA


Em meu ofício ou arte taciturna

Exercido na noite silenciosa

Quando somente a lua se enfurece

E os amantes jazem no leito

Com todas as suas mágoas nos braços,

Trabalho junto à luz que canta

Não por glória ou pão

Nem por pompa ou tráfico de encantos

Nos palcos de marfim

Mas pelo mínimo salário

De seu mais secreto coração.
Escrevo estas páginas de espuma

Não para o homem orgulhoso

Que se afasta da lua enfurecida

Nem para os mortos de alta estirpe

Com seus salmos e rouxinóis,

Mas para os amantes, seus braços

Que enlaçam as dores dos séculos,

Que não me pagam nem me elogiam

E ignoram meu ofício ou minha arte.

SERENATA



Mais um dia,
e ainda tenho desejos.
Houve lágrimas no fim do dia,
Indecisões e certezas juradas de pés juntos.
Flertes e mentiras.
Só resta este sorriso amarelo
E uma vontade de ir...
Como o mar anda agitado!
E pessoas desmaiam na multidão
Cansadas de suas gravatas
Mancando em seus saltos altos,
Tendo câimbras nos dedos
Tentando alcançar a última oferta do dia,
e acabar com as prestações vencidas.
Todos os dias se respira
E se acumula no peito
Boleros, sambas-canção, proibidões,
Jazz e fumaças de cigarros.
E ainda tenho desejos.
Embora nada alimente,
Nada acabe com a fome.
Por isso tantas manchetes,
Tantos atropelamentos, tantas desculpas.
O olho direito treme,
Stress em alto mar.
Diagnósticos, terapias modernas,
Novas tecnologias, imagens do interior.
AVC, ICC, DEPRESSÕES PÓS-PARTO.
Existem disfarces, mal feitos.
Ninguém acredita no fundo: Tudo Bem !
Para não se esquecer de nada,
Acredita-se no dia seguinte.
Então procura-se sobreviver,
Como se procurar amarrar os sapatos,
Para não tropeçar e bater a cabeça na calçada,
E servir de comida aos ratos.
E ainda tenho desejos.
A partir de agora me calo.
Voto nulo, só ouço Cartola...
Torço para que faça sol, amanhã.
Para que chova, amanhã.
Sem pressa de ter o que nunca terei.
Agora quietude, e os conselhos de amigos...
(Célia Demézio)

PARTITURA


Triste do poema pronto
Na ponta da língua
Hoje é o dia do outro poema
Triste de quem perde a vez
Anda na moda que a fila anda
Não há fila se há vez
Olho ao redor e vejo destino
E outras conspirações do tempo
e alguns desertos e outras pausas
Penso que tudo é música
A me dizer
Toca
OuveSenteDiz
(ou cala para sempre
a tua insensatez )


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