terça-feira, 23 de dezembro de 2008

RIO DE JANEIRO


Os chorinhos e todas as canções...
Santa Tereza, Lapa, Copacabana...
E o menino que voa sem parar...

(Célia Demézio)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

ARTE DE AMAR


Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

(Manuel Bandeira)

domingo, 19 de outubro de 2008

INSENSATEZ


“Vai meu coração ouve a razão Usa só sinceridade Quem semeia vento, diz a razão Colhe sempre tempestade” (Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes)

...com ele, como ele fosse uma criança, rolando os dois juntos na sala, ela dando uma bronca em tom de brincadeira. Estão se divertindo. Ele morde sua perna, mas não para machucar. Prende a perna, mas não arranca pedaço. Ele na verdade, não põe as mandíbulas, e sim os dentes inferiores, que são menores. É para brincar, mas não para machucar. Ela pega pelas suas orelhas, beija, e o chama de negão. Tanto cumplicidade ou mesmo amizade, que não se encontra mais. Ela quer cair fora de São Paulo, sacou desde o começo que aqui é outra história. As luzes, brilhos, vida digna, aqui, é para poucos. Hoje a vida tá uma merda. É ser escrava do tempo, esse que já está prestes a desaparecer, sem emprego, não se tem hora, não se tem compromisso, não se tem nada. Dia-a-dia que tudo está bem mais difícil... Acordo, lavo o rosto, bebo água, e vou fumar um cigarro. Para pensar as mesmas coisas de sempre. Continuamos em silêncio, sem nada a falar... Já falamos tudo. Parece que nossos assuntos, nossas idéias, nossos sonhos já foram contados mil vezes. Ou até mais. Quando brigamos, uma sai, ou então ficamos amuadas no mesmo canto, pensando, entrando em desespero. Eu crio uma raiva dentro de mim, juntando todos os defeitos que eu possa encontrar. Vejo uma egoísta do meu lado, espero que ela venha falar comigo, me pedir desculpas. Mas, já não rola desculpas. Sinto que já estamos enjoadas da mesma história. Não queremos mais saber mais delas. Como não querer saber mais de novelas, nem dos jornais, nem de sonhos. Um inferno em chamas ardendo sobre nós, e só sobrou a velha e bentida frieza. Quando sinto que fico com raiva demais, tenho vontade de esmurrar, quebrar, gritar, fazer escândalo. Ela também. Ela já chutou o som e eu já tentei quebrar o violão. Mas estamos sempre juntas. Alguns ou muitos acham casalzinho perfeito, em todos os sentidos que o ser humano hoje pode ter, que são tantos, com tantas cores que já nem dá mais para contar. Ela pára de brincar e vai lavar o quintal, vai preparar a comida, só ouço as panelas. Vou fazer um quintal. Ainda tem um tempo em silêncio, quando começamos a conversar. Ela conta o sonho dela, mas eu nunca consigo contar os meus, porque nunca sei o que rolou, que história contar. Faço esforços, como escrever, e tentar falar o mais longamente possível. Ela quer sair, ir ao teatro, ver cinema, fazer teatro, conhecer gente legal. Ainda não achou. Mas, estamos agüentando firme, em silêncio, ouvindo música. Depois de entregarmos o marmitex, que de projeto de um futuro próspero virou apenas mais uma dolorosa rotina, a gente sai, atrás das coisas, que a gente nem mais sabe o que são realmente. Estão diluídas pelo espaço, concretizadas na TV, que olhamos de boca aberta, com as aberrações do planeta, com os artistas famosos, com as imagens coloridas em preto e branco. Nossa alegria já se foi e só estamos segurando a barra, até um belo dia, não podermos mais. E esse será o fim.

(Célia Demézio)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Um homem com uma dor



um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante

(Paulo Leminsk)

sábado, 20 de setembro de 2008

DIA FRIO... TEMPERATURA BAIXA...



HOJE É SÁBADO DE CHUVA. FRIO, SILÊNCIO, RUAS VAZIAS. PROPÍCIO PARA SE ESCREVER. POR ISSO... UMA RAZÃO COMUM, PARA QUEM ACHAVA QUE SE PRECISA DE INSPIRAÇÃO PARA ESCREVER ALGUMA COISA. E SE COISA ALGUMA ACONTECE, TENTO ESCREVER. ÀS VEZES, DÁ UMA AFLIÇÃO, SÓ PORQUE DE SEGUNDA A SEXTA A GENTE SE MEXE TANTO QUE ESTRANHA O PARADÃO DO FRIO, DA NOITE, DO SÁBADO. SÃO COISAS DA VIDA. E JÁ QUE TUDO ACONTECE NO LADO DE FORA, ME DOU A LIBERDADE DE ESCREVER SOBRE NADA, DELIBERADAMENTE, ESTUPIDAMENTE, SEM COMPROMISSO, SÓ PARA DIZER QUE O CIGARRO ESTÁ ACABANDO, E QUE ESTÁ MUITO FRIO LÁ FORA, E QUE ESTOU COM PREGUIÇA DE DESCER AS ESCADAS, E QUE VOU ECONOMIZAR ATÉ O ÚLTIMO TOCO DE CIGARRO!!! É ISSO, A NOVIDADE DA NOITE. SEM FESTAS, SEM CIGARROS, SEM ESTRELAS...


(Célia Demézio)

domingo, 20 de julho de 2008

OS SENTIDOS DA PAIXÃO




Medo da multidão e dos espaços vazios.
Medo dos encontros e desencontros.
Medo da janela aberta e da porta fechada.
Medo do escuro e da luz na tela da TV.
Medo dos ruídos e da harmonia dos ensaios de orquestras.
Medo da liquidação e dos preços altos.
Medo do frio e da água fervendo no fogão.
Medo das expectativas e da falta de esperança.
Medo da euforia e da derradeira melancolia.
Medo do esquecimento e das lembranças.
Medo do assalto e das câmeras de segurança.
Medo das alturas e do fundo do poço.
Medo da violência e dos slogans de solidariedade.
Medo do tédio e da quebra de rotina.
Medo do próximo e de mim.
Medo das forças ocultas e da objetividade.
Medo da parede pintada e das cinzas dentro do cinzeiro.
Medo das superstições e do bom senso.
Medo da morte e da ressurreição.
Medo da dor e da surpresa alegre no fim do dia.
Medo do mal e dos planos de saúde.
Medo da tecnologia e das cidades de interior.
Medo do mar e dos desertos de areia.
Medo de se atrasar e de furar a fila.
Medo do espelho e dos livros na estante.
Medo de ter medo.
Medo do sucesso.
Medo do fracasso.
Medo por todos os lados...
Agitando corações.

(Célia Demézio)
Poema inspirado no artigo "Sobre o Medo" de Marilena Chauí, incluído no livro "Os Sentidos das Paixões" (Companhia das Letras - 1990)

sábado, 19 de julho de 2008

CONTANDO AS HORAS


"Neste grande imenso pet shop/A cultura é um sabão/Artigo de fim de estoque/Aproveite a ocasião/Mundo mundo mundo cão/Mundo mundo cão" (Zeca Baleiro/Sérgio Natureza)


Enquanto a semana passa, uma tosse incrível me pegou de jeito. E contrariando o bom senso que ronda nossa vida feito uma sombra grudenta, fumo mais um cigarro para distrair minhas emoções. Tenho bebido bastante, calibrando meu tato e escorregando no chão do banheiro, passo em frente às vitrines, zanzando feito uma barata tonta e acho que estou sob suspeita. O vigia vem na direção contrária e eu desvio o olhar para uma blusa muito bonita, numa loja muito bonita, com vendedoras muito bonitas e fico ouvindo funk dos anos 60 pelo MP3. Em casa fico brincando de instalar e desinstalar programas e espero pacientemente que o mouse destrave e saia do canto da tela. Somos tão tolerantes com a tecnologia e ficamos de boca aberta, banbando feitos cachorros doidos, com as propagandas na TV. Mas fico parada, desanimada, sem energia, sem poesia. Minha produção anda em baixa. Só finjo que estou vivendo. Hoje me perguntaram minha idade. Momentos burocráticos, formais e tentativas de autocontrole. Respondi 41. Nunca tinha dito esse número antes. Mas soou bem. 41...até o embriagante 51 falta mais alguns copos. Mas nem vale a pena lembrar desse fato, como de outros tantos. Mas temos uma mente traiçoeirazinha e sempre topamos o joelho na mesinha de centro. E como dói... Que tal falar sozinho? Algum pensamento solto que escapa pela boca a fora? Alguma maldita besteira que nos escapa em frases ou em palavras.Há algo de prazeroso na loucura, por isso não se olha muito nos olhos de alguém. Há o medo da velhice, pela sua crueldade em nos deixar sem rugas, fracos e sem dentes. Mas a espero, como um alívio a todas as ansiedades e medos. A morte vem chegando mais perto e a vida se torna um apanhado de falsas lembranças e velhas tristezas, medos inúteis e aposentadorias por tempo de chatices. Mas sobre esse último tópico não me arrisco a explicar muito. Um estudo de sociologia talvez responda como, através dos séculos, quando o ser humano pára de contribuir para a sociedade sacana, mentirosa e assassina. Temos que correr atrás porque o mundo ficou speed. A base de drogas sintéticas e leis de trânsitos. E esse mundo está na tela do computador, e tentamos ver quem está do outro lado. Mas chega o tédio e tudo pode virar apenas um grande vírus. Cavalos de Tróia prontos para se abrirem e nos destruir em milésimos de segundos. Uma assistência técnica formata e volta tudo outra vez, a mesma memória, os mesmos documentos e as mesmas armadilhas. E tudo vai correndo na maior maravilha, correndo como nunca correu antes, sem a menor chance de correr uma lágrima em nossos olhos.

(Célia Demézio)

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O MENINO QUE DORMIA


Ele entrava na escola no colo da avó, e dormia profundamente. Era tão cedinho ainda... Enquanto a professora cantava em roda com os seus amiguinhos, a música de boas-vindas, ele dormia, profundamente. As primeiras horas do dia eram feitas de sonhos, e por isso, talvez, o menino não queria acordar. Enquanto o mundo acordado fazia um monte de coisas, o menino ficava de olhos bem fechados, e o colorido da classe não atingia sua íris. Só quando davam nove horas... o dia começava para o menino... ele agora continuava sonhando, acordado...



(Célia Demézio)

O MEDO DA MENINA


Ela tinha medo, de muitas coisas. Como por exemplo, de pombo, de dinossauro, de balance, do escuro. Chorava muito quando tinha medo. Ficava assustada com brincadeiras de monstro. Arregalava o olho e abria o berreiro. Chorava tanto que ela salgava toda a boca, parecendo que estava tomando sopa de lágrimas. Um dia sua mãe disse que tudo que ela tinha medo não fazia mal nenhum a ninguém. Ela podia ficar tranqüila, porque nada aconteceria no escuro, e que os pombos não mordiam ninguém. A voz de sua mãe era tão suave que a menina adormeceu em seu colo e sonhou que estava brincando com pombos, assistia desenhos de dinossauro e que o escuro tinha cheiro de chocolate. A partir daí, a menina não teve mais medo, e viveu feliz com tudo que existia no mundo...


(Célia Demézio)

sábado, 22 de março de 2008

O ATRASO


O canto da televisão avisava a hora marcada. Cobria um pedaço do terno do entrevistado. Tentei marcar as horas no relógio digital. Mas não conseguia alcançar a hora exata. Por milésimos de segundos estava atrasada. Fiquei com o dedo nos botões, prontos para acertar o tempo. Um toque no botão das horas, dois toques nos botões dos minutos. Por questão de distração fiquei dois minutos atrás. Quando tentei acertar, adiantei-me para o dia seguinte... De qualquer forma, é uma forma de atraso... Passei por alguns segundos, da quinta para sexta-feira... Logo tratei de voltar os ponteiros para trás. Tentei alcançar o horário marcado no canto esquerdo da TV. Mas nunca consigo ser pontual com o que vejo... Por milésimos de segundos muita coisa já passou bem na frente do seu nariz... É cruel essa corrida contra o tempo...

A entrevista acaba: "Obrigado, mas nosso tempo esgotou"...
Depois de uma hora, vieram os créditos finais...
(Célia Demézio)

domingo, 9 de março de 2008

MISSÃO COMPRIDA


Você conseguiu tudo na vida:

uma grande barriga

bem alimentada,

uma amante infiel

uma esposa comportada

carro do ano

filhos rebeldes ao teu jugo tirano

casa própria, emprego com crachá

um sítio em Visconde de Mauá

um ufanista amor pelo país

tudo como manda o figurino(de Paris).

E morrerá, cumprindo a sua parte,

de tensão ou de enfarte,

de repente,

sem nem ao menos de longe perceber

que podia ter sido diferente.


Las cortinas y Mi monstro


Me dan miedo las cortinas, en realidad no son las cortinas sino lo que hay detrás de ellas, aquello que no vemos pero imaginamos. Siento un temor especial cuando para emprolijar la casa cierro la cortina de la ducha, la única que existe en casa, escondiendo baldes, secadores de piso, trapos, lavandinas, detergentes y otras cositas. No puedo evitar pensar que hay alguien escondido allí. Y así fue que temiendo sin sentido sucedió lo que mi temor deseaba. Fue unas de aquellas defecadas irrepetibles, esas que complementan un par de días sin nada, el almuerzo del domingo, y las porquerías que comí el sábado porque salí de joda y me chupé todo y después me comí todo para rebajar mi soberano pedo etílico. El caso es que al correr la cortina me lo encontré, era un monstruo literal y se parecía a mí, pensé por un segundo que estaba llegando al final de mis días. No fue así, después de extensas conversaciones y sin otra que asumir mi exposición escatógica llegamos a un acuerdo, de a poco nos hicimos amigos, tan amigos que hoy me atrevo a llamarlo con cariño: Mi bien amado monstruo.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

UMA NOTA SÓ

" Já me utilizei de toda a escala/E no final não sobrou nada/Não deu em nada" Samba de Uma Nota Só (Tom Jobim)



Essa música... nunca pára... Infinita... soa, como de hábito... , mas a vida continua. Talvez eu tente escolher uma trilha sonora para cada cena... mas só existe uma música... que nunca pára de tocar... E lá se foram os anos... vinil... fita cassete, e agora, neste exato momento, CD, MP3, e cliques do mouse... mas essa música nunca pára... de tocar. Há anos em meus ouvidos. Já virei o disco... mas houve defeito de fábrica. Do outro lado não ouço nada... apenas ecoa... infinitamente... o silêncio... ou seja, ou o silêncio... ou a mesma música de sempre. Essa é a escolha.
Hoje acordei, tomei um copo d´água, um gole de café preto e um cigarro. Liguei o computador, zanzei de um lado para o outro, por e-mails, deletei spams, e começou a chover mais forte... O quarto sujo, papéis e poeira... dei uma varrida para distrair a mente... Pus a Elis para tocar... e abri uma lata de cerveja, bem gelada... a primeira lata não foi bem redonda... mas engoli... de teimosa. Não dei muita bola as minhas más sensações... e continuei a tirar o pó dos móveis... Muitas cinzas de cigarro pelos cantos. A Elis também não me agradou, dessa vez. Mudei para Elizeth Cardoso. A primeira faixa me soou meio fúnebre. Talvez seja minha tristeza... senti um medo repentino de viver... Barracão de Zinco me emocionou... Um instante de atenção maior... Depois virei o disco... como dizem os otimistas de plantão... Clara Nunes... talvez algum deus me desse a resposta... Só continuei limpando... tirando o pó... como uma neurótica, diagnosticada por Simone de Beauvoir. Interrompi o som... fui comprar mais cigarros... Houve um bloco de carnaval pelo bairro... mas chovia muito... Confesso que a bateria me emocionou... Mas, tudo acabou muito rápido... como efeito de um crack... A multidão logo se dispersou para seus respectivos abrigos... Santos não anda sendo uma cidade muito empolgante, verdade seja dita... E o dia vai acabando... e acabei ouvindo Lobão... Rock´n Roll na veia!... Um pouco de soro para quem não tem forças mais para sorrir... Agora é hora do silêncio... como nos filmes de suspense... daqueles clássicos... barra pesada...
Não consigo parar de ouvir a mesma música... incomoda, às vezes... Se soubesse de outro som, teria alternativa... se sei... nunca botei para tocar... triste e patética história... os fones de ouvido talvez me deixaram surda algum dia... a única coisa que consigo fazer agora... é bater o pé, acompanhando o ritmo... ouvindo alguma canção... ou qualquer bobagem...


(Célia Demézio)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

VAMPKLAUSS IV


As horas são poucas, mas continuam,

No escuro, rondando em círculos.

Basta alguns passos,

Para nunca e sempre chegar.

Meu tempo é igual ao seu,

Sem desvantagem nenhuma.

É a vida que faz pensar assim,

Para frente e para trás,

Sem momentos de parada.

Só são sonhos, que constroem pontes

E delírios no mundo.

Olhando de um lado ou para outro,

Zonzeira de se fazer...

Mas tudo que se faça é inútil,

Por tanto, continuamos a trabalhar,

De dia e de noite...

Tentando, mas não tanto.

É meia-noite, vou me levantar

Porque de manhã as coisas surgem num piscar de olhos.

Não temos mais nenhum segundo,

E nem tantos minutos...

Apenas vinte dedos.


(Célia Demézio)

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A morte absoluta


Morrer.

Morrer de corpo e de alma.

Completamente.


Morrer sem deixar o triste despojo da carne,

A exangue máscara de cera,

Cercada de flores,

Que apodrecerão - felizes! - num dia,

Banhada de lágrimas

Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.


Morrer sem deixar porventura uma alma errante...

A caminho do céu?

Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?


Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,

A lembrança de uma sombra

Em nenhum coração, em nenhum pensamento,

Em nenhuma epiderme.


Morrer tão completamente

Que um dia ao lerem o teu nome num papel

Perguntem: "Quem foi?...


"Morrer mais completamente ainda,

- Sem deixar sequer esse nome.


(Manuel Bandeira)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Tão Cedo



Tão cedo tudo quanto passa!

Morre tão jovem ante os deuses quanto

Morre! Tudo é tão pouco!

Nada se sabe, tudo se imagina.

Circunda-te de rosas, ama, bebe

E cala.

O mais é nada.


(Ricardo Reis)

Alcoólicas


...

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.
...
(Hilda Hilst)

domingo, 6 de janeiro de 2008

NO FUNDO TUDO É PRO FUNDO...


Não tem fim uma noite dessas...
ÀS VEZES A GENTE ACHA QUE TUDO SE RESOLVEU, MAS É SÓ UM ADIANTO...
Nem preciso dizer mais nada
À uma hora dessas é hora de todo mundo dormir... que faço eu cochilando não sei.. nem precisam me responder as coisas são coisas já dizia Arnaldo Antunes... não costumo recitar versos por não ter boa memória e vivo vagando no fundo do nada. E esse nada é um monte de história que vira página e nunca termina... nunca tem fim se tudo é assim nem sei o que estou esperando nem sei o que estou querendo nem sei a última frase... por isso desencano às vezes...
Para poder respirar...
Para poder viver uma vida normal...
Como todos que vejo passeando todos os dias pelo calçadão da praia...
Se não consigo...
É porque tropeço... e cometo exageros e espero que no outro dia tudo fique bem...
Mania idiota de quem já tem mania de depressão... manias pegam e não largam mais...
Meu cinzeiro vive cheio e esvazio continuamente...
Fico feliz pela blusa que me dispensa o sutiã... muito obrigada por uma alegria... mas estou esperando alguma coisa...
Tô de trouxa na mão esperando alguma novidade...
Se me cutucarem no ombro desejo uma semana tranqüila e disfarço que não é comigo...
Vou dormir de bruços e esperar o que vem no dia seguinte...
É assim que funciona todos os dias...
Aprendi que esperar é uma forma...
E nem sei se ponho a mão esquerda ou direita no queixo...
Sei lá eu...
Eu sinto muito ... mas ignoro muitas coisas...
(Célia Demézio)

O MUNDO VIVE...


Respirando alto...
Grita bem alto... como tivesse tentando ouvir ...
Mas não deve nada a ninguém... por isso mundo é mundo...
Porque muda a todo o momento, e se recolhe de repente...
Não põe pingos nos is... não joga conversa fora...
Deitado na cama... bebendo numa mesa de bar...
Mundo é mundo... e não deve nada a ninguém....

(Célia Demézio)

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