segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Hora Fatal


É agora.É afora. É depois.

É nós dois. É ninguém.

É o que não vale vintém.

É falar não mais.

É ficar pra trás.

É dizer adeus. Para nunca mais.

É a obra-prima da nihilessência.

A incongruência. Subpoesia.

É a apatia. A irrelevância.

A ignorância.

É não mais temer.

Por nada não se ter.

É antipatia. Por não merecer.

É sofrer calado.

É estar cansado.

Se sentir fadado.

É incompetência. Estar inseguro.

É olhar o muro. Bem à sua frente.

É ficar doente.É "lavar as mãos".

É negar perdão. É dizer "jamais".

É voltar pra trás. É conspiração.É sempre dizer "não!".

É prisão perpétua. No coração.


segunda-feira, 26 de novembro de 2007

OLHOS SOBRE TELA...



Estava muito cansada, o dia, como sempre, foi cheio. De manhã, o café, o rádio, a hora certa, o cigarro, a chave entre as almofadas. Sair, pegar ônibus lotado, caras desanimadas para mais um dia de trabalho, emprego, salário de merda, hora do almoço, uma hora para mastigar, preencher mais formulários, digitar listas, seis horas da tarde, horário de verão, desligar os computadores, pegar novamente um ônibus, lotado, caras cansadas, trânsito lento, pernas e cabeça doendo, procurar a chave de casa nos bolsos, abrir a porta, fazer janta, servir-se, sentar-se e ligar a TV. Notícias, jornal das dezenove horas, seqüestro de empresário, criança cai no poço pluvial, continua os conflitos no Oriente Médio, reajuste aos aposentados, casamento do Príncipe de Bruxelas, sem-terras invadem departamento do INCRA, turnê da Madona, os comerciais. Refrigerantes, lojas de eletrodomésticos, propagandas do governo, lindas mulheres e carros zero quilômetro, cervejas geladinhas, combate às drogas, mais dez ambulâncias para um município de Alagoas, a vizinha discute com os vizinhos.Vou mudando de canais, deixo aquela luz colorida cansar as minhas vistas. Uma profusão de arco-íris eletrônico: o vestido vermelho da Vera Fischer, o fundo azul do jornal das oito, as gravatas amarelas de listras verdes dos deputados estaduais, o cabelo amarelo da Xuxa, os olhos azuis do Tom Cruise.Me levanto e vou pegar um livro na estante. Pego Pablo Neruda, abro na página noventa e oito e encontro um cigarro de baseado. Volto pra sala, está passando um anúncio de desodorante, acendo e prendo a respiração. Um novo aumento do dólar. Mudo novamente de canal e o Ratinho diz em bravatas e cuspindo na câmera de TV que não tem medo de nada.Nem eu teria ganhando a grana que ele ganha. Mas um momento parecia que o apresentador iria sair pela tela e me dar um murro na cara. Mudo bruscamente para outro canal. Novela mexicana, um outro homem de bigode, eles estão por todas as emissoras. Mudo novamente, Cultura Popular do Nordeste, Festa de Reis. Uma senhora com apenas dois dentes na boca, no rosto o mapa de sua longa vida, negra de olhos claros, lenço na cabeça, velha rezadeira. Com uma voz fraca diz "Nóis num temo riqueza, dessas de TV, mais temo alegria, alegria de vive, cantá, é assim desde de que eu nasci, que mundo é mundo. Tem gente que vérve diferenti, nóis respeita, porque mundo é muitu grande, e a gente é pequeno, mais somo grande coração." Ela olha para jornalista, e câmera olha para dona Maria. Que riquezas na TV são essas? Me pergunto. Mudo de canal, um grupo de Axé rebolando na cara de milhão de telespectadores, uma propulsão de cores, cenário abóbora, com detalhes lilás, vermelho, verde e amarelo, a roupa do apresentador, camisa florida, calça azul turquesa, relógio roléx, ouro de dar vertigem. Uma música de um só refrão, alguém afinou o pau de não sei quem.Realmente, tem muita grana na TV, bem diante dos seus olhos, vinte quatro horas do dia, enquanto pensamos em suicídio. Dona Maria tinha razão, volto para Cultura Popular do Nordeste. Acabou o programa, apenas restou os créditos finais. Quanta gente sobre os olhos de dona Maria. Anunciam a próxima atração, uma homenagem à Regina Duarte. É muito pra mim. É dose. Desligo a TV. Mas ao invés de total silêncio, fica um zumbido nos meus ouvidos. Ecos da Viúva Porcina, bombas da Palestina, locução esportiva, e a voz de Dona Maria: "Cantá, vive, é assim desde que nasci, desde que mundo é mundo".

(Célia Demézio)

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

EM MEU OFÍCIO OU ARTE TACITURNA


Em meu ofício ou arte taciturna

Exercido na noite silenciosa

Quando somente a lua se enfurece

E os amantes jazem no leito

Com todas as suas mágoas nos braços,

Trabalho junto à luz que canta

Não por glória ou pão

Nem por pompa ou tráfico de encantos

Nos palcos de marfim

Mas pelo mínimo salário

De seu mais secreto coração.
Escrevo estas páginas de espuma

Não para o homem orgulhoso

Que se afasta da lua enfurecida

Nem para os mortos de alta estirpe

Com seus salmos e rouxinóis,

Mas para os amantes, seus braços

Que enlaçam as dores dos séculos,

Que não me pagam nem me elogiam

E ignoram meu ofício ou minha arte.

SERENATA



Mais um dia,
e ainda tenho desejos.
Houve lágrimas no fim do dia,
Indecisões e certezas juradas de pés juntos.
Flertes e mentiras.
Só resta este sorriso amarelo
E uma vontade de ir...
Como o mar anda agitado!
E pessoas desmaiam na multidão
Cansadas de suas gravatas
Mancando em seus saltos altos,
Tendo câimbras nos dedos
Tentando alcançar a última oferta do dia,
e acabar com as prestações vencidas.
Todos os dias se respira
E se acumula no peito
Boleros, sambas-canção, proibidões,
Jazz e fumaças de cigarros.
E ainda tenho desejos.
Embora nada alimente,
Nada acabe com a fome.
Por isso tantas manchetes,
Tantos atropelamentos, tantas desculpas.
O olho direito treme,
Stress em alto mar.
Diagnósticos, terapias modernas,
Novas tecnologias, imagens do interior.
AVC, ICC, DEPRESSÕES PÓS-PARTO.
Existem disfarces, mal feitos.
Ninguém acredita no fundo: Tudo Bem !
Para não se esquecer de nada,
Acredita-se no dia seguinte.
Então procura-se sobreviver,
Como se procurar amarrar os sapatos,
Para não tropeçar e bater a cabeça na calçada,
E servir de comida aos ratos.
E ainda tenho desejos.
A partir de agora me calo.
Voto nulo, só ouço Cartola...
Torço para que faça sol, amanhã.
Para que chova, amanhã.
Sem pressa de ter o que nunca terei.
Agora quietude, e os conselhos de amigos...
(Célia Demézio)

PARTITURA


Triste do poema pronto
Na ponta da língua
Hoje é o dia do outro poema
Triste de quem perde a vez
Anda na moda que a fila anda
Não há fila se há vez
Olho ao redor e vejo destino
E outras conspirações do tempo
e alguns desertos e outras pausas
Penso que tudo é música
A me dizer
Toca
OuveSenteDiz
(ou cala para sempre
a tua insensatez )


quarta-feira, 25 de julho de 2007

A CIDADE


Eu sou a Cidade, que te protege.

Sou eu quem você procura, para te livrar da dor a noite.

Você corre nas minhas veias em busca do segredo em busca da liberdade.

Mas a morte também ronda em mim, e as vezes você encontra com ela de cara.

Mesmo assim você teima em correr...

E eu te escondo em minhas veias em meus prédios, casas, abrigos, pontes, esgotos e muros.

Sou eu quem você teme.

A Cidade que você nasceu, naquele dia em uma de minhas veias onde já corriam outras vidas.

Sou eu quem te esconde, quem te protege, quem te machuca e te cura.

Tendes a fugir de mim ainda que saiba que sou tudo em sua vida.

Saia de mim, sua cidade, e vá para outra e mesmo assim uma cidade em sua vida você terá.

Que terá veias, vida, fome, corpos em movimento, a musa,

o deus, os reis da noite, cheia de luzes a cidade ainda corre na sua veia.

Não importa o que você sinta, quando a noite cai, você está em mim e eu em você tambem estou.

Você corre, pára, estuda, olha com atenção e não vê

que mesmo assim ainda é meu brinquedo, minha marionete

e quem te leva prazer, dor, angústia e a maior das dúvidas, quem sou eu?


domingo, 8 de julho de 2007

Meu eu escorado


Bandit sozinho em casa, a solidão do apartamento... a solidão é uma poltrona confortável de cores sombrias... Abri um nacional mediano, gelo de forminha, e encontrei duas latas de soda na geladeira...


Sem música, sem vídeo, só as paredes na penumbra do abajur... não, eu não vou descambar pras sacanagens hoje, não estou a fim de conceder nada pra literatura agora, nem vou contar uma história, desiste agora se você espera isso... não confie no que disseram sobre minhas habilidades... talento?


É. Dizem por aí que sou um cara talentoso, se defendesse Raskolnikov do duplo homicídio ele pegaria no máximo 13,6 anos de reclusão e deixaria de ir para a Sibéria. Mas o que faço com meu talento? Sorry, mamãe, eu uso pra comer putinhas de graça, mas nem sempre, adoro pagar pelo sexo...


Coerência... dez mil anos de uma civilização capenga, milhares de universo caótico e o tipinho de gente que anda por aí... Eu acho que evoluímos até demais, considerando o tipinho de gente que anda por aí... o mundo é abastado em coerência.


(parêntesis: gravata deve ter alguma coisa a ver com coleira, deve fazer parte de alguma sacanagem de um estilista molieriano passando um pente no rabo da burguesada fingindo um afago)


Estou completando 29 anos hoje e tenho cartas na manga, um olho no crupiê, outro no espelho: vejo meu rosto sincero, é minha melhor jogada... a pior desgraça que pode acontecer a um vampiro é ter rosto de canalha, meu vampirismo se manifesta entre as bolas e a glande do pênis, mantenho assim um sorriso benévolo. Drácula no século XXI estaria fodido, seria gerente de boca, nem chegaria ao colarinho branco, talvez até virasse o excêntrico motorista da tower do banco de sangue.


Um cara calmo demais, eu sou. Acontece às vezes de ser paciência, noutras é indiferença mesmo... tento adivinhar o que vão dizer antes de terminarem a frase, e preparo meu ataque durante o abrir e fechar de lábios de quem me fala, só bato se realmente valer a pena. Se o cara me surpreende eu uso improvisações aprendidas em exercícios de artes cênicas, fui um ator medíocre de um teatro infame... o contrário também cai bem.


Pesadelos... tenho pesadelos, num deles sou preso pelos militares, solto pela anistia, e depois preso pelos petistas que chegaram ao governo – Sade entende dessas coisas. Na minha cela Ernesto Che Guevara está vivo e pergunta o tempo todo: quantos somos? Brizola quer saber: vivos ou mortos? Mortos, digo olhando pro Guevara que baixa a cabeça e resmunga creo que sea el fin de la revolución. Todo mundo que nasceu em 1977 deve sonhar coisas parecidas...Eu dormi no fora Collor e meu mundo é a planície... tenho a profundidade de um Sátiro... Adoro cafunés pagos, releituras de livros e vento na cara... Encontrei Saulo ontem num sebo da 23 de maio e o cara folheava Piotr Kropotkin com paixão, eu também fazia isso em 1999.


Sátiro... quando lembro de revolução penso em sexo... Ela, nua, tatuada em henna, me pergunta se o correto é “pele dos indianos” ou “peles de indianos”?... Recomendo o singular, embora num lugar em que se admitam castas certamente pode-se usar sem medo o plural para pele. Esse negócio de pele é sério e eu venho tentando salvar a minha já há algum tempo.


É meu aniversário, já falei. Ganhei o dia de folga, está nublado, mas fiz o que nunca faço, passei a tarde de hoje na praia, óculos escuros e boné, sentado no quiosque olhando o mar sem cor... pouca gente na areia, fiquei atento a duas mulheres sentadas vigiando várias crianças que corriam sorrindo, brincavam de pique enquanto eu dava goles macios na minha cerveja. Uma menina tropeçou e caiu chorando e todos foram embora depois. Eu tava me divertindo. Pensei num palavrão. Adoro palavrões... Nem pra falar hoje em dia, só para lembrar, colecionar... tenho cada pérola guardada... tive uma mina que achava esse negócio de palavrão barato, gratuito... porra, pra mim foi caro, no passado paguei com sangue os palavrão usados...


(Outro sonho estranho: eu com um chapéu de palha cantando sambas de Moreira da Silva para uma platéia de coroas ensandecidas num cabaré decadente... quero sugar essa força do velho Moringueira; há tanto tempo tentando um texto forte, vibrante, e cedo a pieguices sem tamanho, amenidades tolas... é difícil manter minha literadura...)


Minha literadura: eu bebo nos botecos da Ilha da Conceição de madrugada, ao lado de traficantes, ladrões, damas e santos... mas compro chocolates nas Lojas Americanas... depois vou procurar livros em promoção, eles ficam perto da seção de lingerie... Já achei Mallarmé um dia, mas agora só encontro a Matemática dos Aniversários e livros ensinando a trepar sem a graça e o brilho dos antepassados, dos Vatsayana, dos al-Nafzawi... a cultura de massas enxuga muita coisa, mas o que ela mais seca é a alma e o sexo... a gente trepa muito e sente pouco, maus orgasmos cotidianos e necessários, a alma pela metade.


(mas de tempos em tempos acontece o gozo que redime, me abastece em sua arena de luta e paixão...)


Bebo ainda, mas é absolutamente necessário que eu mantenha-me lúcido... eu bebo pra ver melhor, não para fugir.. um sadomasoquismo social, é por aí... Já criaram o darwinismo social e agora estão usando Nietzshe como auto ajuda...


Eu prefiro essa de sadomasoquismo social, o caminho até aqui foi fodido, mas antes de me vangloriar por ter escapado, temo pelo resto de estrada e a quantidade de munição que sobrou: pipoquei metade das balas até os 25 anos. Depois daí passei a dar tiros seletivos, tenho chumbo ainda, mas isso cessa sem mandar recado, principalmente na hora de cruzar o redemoinho.


Vivo e sinto presente a bala guardada com meu nome gravado, todo dia... munição do caralho que não masca, pólvora negra, clássica: 75% de salitre, 15% de carvão e 10% de enxofre...


E é esse cheiro de morte que anuncia o crepúsculo avisando que o sol não vem trabalhar hoje, sumiu essa semana, o sacana. As meninas estão perdendo as marquinhas de biquíni nas ancas e isso é imperdoável... imperdoável.



sexta-feira, 22 de junho de 2007

O CAMINHO DO CINEMA


A televisão ligada. Luz e imagem.

No canto direito o braço de um violão.

Uma bolsa desfocada atrás.

À esquerda o som, a mesa, à direita,

o armário.

Mosquitos invisíveis.

Alguns versos, saem palavras.

Um papel jogado, ao lado um abajur.

Unhas compridas e sujas.

Cigarro aceso na mão esquerda

Entre os dois dedos levantados para cima.

Paz e amor.

Coisas.

Parede cinza, janela fechada.

Nuvens de fumaça.

O som da Bethânia anos 80.

Som de fundo, a trilha sonora...

Todos os caminhos, todos.

(Célia Demézio)

quarta-feira, 20 de junho de 2007

LUGAR-COMUM


bastou arrancar plumas, pompas
pesadelos
pelos
pele
arquitetura de esqueletos
fazendo fogo
com o roçar dos ossos
bastou cravar no desalinho
o fio tênue e reto do compasso
delineou-se um outro tecido
cravado pela distância
o que se perde é o que não se é

LOTADO DE CONTRADIÇÃO E ARBITRARIEDADE O HUMANO




Se eles querem assistir ao menininho sem braços e pernas na tevê, ou anomalia outra qualquer como espetáculo, deixem que eles assistam, porque assim não reconhecerão nada além do grotesco e não reivindicarão por nada além do grotesco.
Se vocês acham que existe uma inversão de valores, saibam que estão todos vocês enganados. Para eles não há valores, porque retiramos isto deles. E como não há valores, não há como reivindicar por eles.Assim o mundo deles é uma ilusão construída com o propósito de mantê-los a nós submetidos. Porque o mundo real não lhes pertence. Nós somos os donos do mundo, nós legislamos e ditamos o que é certo e o que é errado. Porque eles nada sabem além do simulacro que inventamos para eles.
A verdade está conosco, mas eles preferem acreditar nas mentiras que contamos para eles. E eles são felizes em sua ignorância. E eles nos agradecem por serem felizes. Porque nós demos a eles algo para acreditar. Porque nós retiramos deles o peso do livre-pensar. Porque não há livre-arbítrio, mas isto eles também não sabem.E quando chegar o dia em que nós não mais precisaremos deles, eles serão exterminados e não saberão nem mesmo por que. Porque o mundo deles não é real, mas um simulacro grotesco do nosso mundo, que inventamos para salvá-los do peso de suas próprias consciências. Diremos isto a eles e eles nos agradecerão. Porque eles não têm consciência. Porque eles foram destituídos de sua própria alma. Porque, em verdade, são eles meros mortais.
Mas quem são eles? E quem somos nós? Somos os mesmos. E desses mortais, o humano. Nós, contudo, somos imortais.

(Rodrigo Novaes de Almeida)

sexta-feira, 15 de junho de 2007

MÁQUINA ALGUMA DE POUPAR TEMPO




Máquina alguma de poupar trabalho
Eu fiz, nada inventei,
Nem sou capaz de deixar para trás
Nenhum risco donativo
Para fundar hospital ou biblioteca,
Reminiscência alguma
De um ato de bravura pela América,
Nenhum sucesso literário ou intelectual,
Nem mesmo um livro bom para as estantes
- apenas uns poucos canto
vibrando no ar eu deixo
aos camaradas e amantes.

(Walt Whitman )

ESPAÇO CURVO E FINITO

Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
(José Saramago) Gentil colaboração de Lee

ROBSON QUALÉ?


Navego nos mares,

Neste vai e vem,

Nestas dores felizes,

Nisto tudo.

Passo torta e balançada

Na pancada da onda.


Quase me afogo.

Todos os dias tento nadar,

Dizem ser muito simples.

Na areia da praia

Os peixes fritos

Borbulham na frigideira.

E eu navego.


Um porto de entrada

Escrito não tem saída,

É o que nos avisa.

Sexta-feira de tênis,

Sábado ando descalça.

Eu navego.

A bússola ao oeste

Perdida. Ninguém se acha.

Do mar vai e vem a sensação

Do eterno.

(Célia Demézio)

quarta-feira, 13 de junho de 2007

O RISCO


Aos poucos bordei a toalha. As flores nasceram frágeis e cresceram em ponto cruz no retângulo. Um pano branco passivo no tempo. Ao fundo a música de Bizet tocava as batidas dos saltos de Carmem. Um touro passou por minha sala. Acompanhei com o olhar o quadril elegante do bailarino no dourado das suas calças. Não atendi a chamada do interfone. Meus lábios entreabertos olharam o vazio. Agora eu terminara de bordar. Pouco restou da vida que brilhava lá fora. A árvore da felicidade na sala insistia em crescer, apesar do pouco que eu fazia por ela. De vez em quando me lembrava de regá-la. Peguei a linha amarela para guardar e não me dei conta da pressão na panela. O tomate congelava na geladeira, assim como os legumes, o queijo e os líquidos. Fora descongelada no último final de semana, mas eu não me entendia com a graduação na qual deveria animá-la. Seria perto do dois ou perto do off? A segunda-feira pegou-me de jeito e fiz dela o possível. Não foi hoje que marquei de ir ao cinema? Como passa o tempo! Hoje não sou mais aquela lá que marcou o compromisso. Hoje não quero ir ao cinema. O colorido da flor estampou meu rosto. De manhã li um trecho da Paixão Segundo G. H.. Descobri outra ponta que preciso bordar. Acho que está tudo em seu lugar. Quero sempre estar aqui e nunca estar lá. Vou desligar a panela de pressão, para não causar acidente. Apesar do ruído do trânsito, percebi o devorador de mulheres em decomposição. Ultimamente o vento tem me atrapalhado. O peixe, o cristal e a peça arqueológica à minha esquerda esperam-me.


(Zezé Goldschmidt)

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Vida me carrega no ar como um gigantesco abutre







(...)
minha dor é um anjo ferido
de morte
você é um pequeno deus verde
& rigoroso
horários de morte cidades cemitérios
a morte é a ordem do dia
a noite vem raptar o que
sobra de um soluço

SEM GELO, POR FAVOR!







“ De algum modo, o mundo tinha ido longe demais,
e a bondade espontânea jamais poderia ser tão fácil.
Era algo por que teríamos de tornar a batalhar”.
( Hollywood – Charles Bukowski)





Éramos quatro doidões, sabia que algo dentro de mim me sacolejava a alma. Minha boca super seca, e podia sentir a tensão subindo pela minha espinha. Uma espécie de viagem para o inferno. Só posso me lembrar das casas deixadas pra trás, um vento correndo em meu rosto, a máquina a 200 por hora. Maurão acendeu o cachimbo de crack, enquanto um negão de bermuda, que falava um monte Caralho! Onde foi parar?!, ao meu lado catava pedrinha por pedrinha em baixo do banco traseiro. Passei a mão no nariz, e senti aquele liqüido frio descer até a ponta do meu lábio superior. Aquelas pedras me anestesiaram emocionalmente e eu só podia estar vendo era um filme super 8, pois tudo me parecia P&B. O bom e velho Joe Cocker dos anos 70 ao vivo na maior altura, no toca-fita do Palium vermelho zerinho do Maurão. Aquela rouquidão misturada a ácido lisérgico arrepiou os cabelos dos nossos dedões dos pés. Logo depois o negão abriu a porta do carro, e aproveitei para esticar as pernas. Naquele instante o tempo girava em círculos para nós todos. Daqui a alguns instantes já estávamos em frente ao Glacial Bar Night, uma boate que se pode dizer na hora “chiquérrima”. Entramos com as mãos nos bolsos, olhos avermelhados, rostos e luzes pareciam os enfeites da casa. Lili, a chilena, que tinha olhos de gato, roupa indiana e tatuagem de florzinha no tornozelo, saiu do carro do Maurão, gritando naquele sotaque portunhol que legal! Entrou pulando, logo paquerando o barman, e me veio aquela pontinha de ciúmes latejando dentro do peito, mas mudei a direção do olhar, e agora estava simplesmente vendo um casal tomar choop. Se eu girasse mais um pouco a cabeça, iria vomitar o churrasquinho que a gente tinha comido no boteco Tubarão, lá mesmo no carpete verde do Glacial Bar. Quando dei conta Maurão estava pegando o garçom chefe pelo colarinho gritando na cara dele Eu sou um idiota, repita! Fala! Tô pagando! É dinheiro que vocês querem caralho! Pois eu tenho dinheiro! O garçom fingindo não estar incomodado com a situação, mas ao mesmo tempo cagando de medo de morrer estrangulado, respondeu prontamente Eu sou um idiota. Maurão largou o idiota, e ficou batendo no balcão gritando que podia tudo. O garçom chefe ajeitou sua gravata borboleta e sorriu amarelo, dando um sinal a um outro garçom, subordinado a ele, para que ele se mexesse o mais rápido possível e nos desse uma mesa. Maurão tinha muita grana e uma carência muito maior. Seu irmão era campeão de judô, enquanto ele queimava, cheirava, bebia e até enfiava no cu o dinheiro da Academia Olimpíadas de Los Angeles. Lili, chilena, bebia um monte, viajava, ria um monte também. Eu até que gostei da nigth birinight. Não me lembro o que comemos, bebemos e nem do que falamos naquele bar de classe média médiazinha, mas sempre gostei de parques de diversões.
Só me lembro do vento em minha cara, e nós no carro novamente, do Joe Cocker e uma latinha de cerveja quente na minha mão. O resto do aldol com vodka deu seu recado, olhava as montanhas que tinham ficado no lugar dos edifícios, e pareciam que elas faziam um certo movimento, um ziguezague linear e gostoso. Ouvi vozes, o céu escuro, as milhares de estrelas e o som de coral de grilos, sinfônico e solitário. Os grilos seriam excelentes músicos, inovadores, tranqüilos, e não precisariam da fama para se sentir realizados. Viva os Grilos! Mas, nós, comemos a plantinha a bilhões de anos atrás, construímos a sociedade, de paz, de guerra, de amor, de cartões magnéticos, e outras coisas mais que virão nos próximos 10 mil anos, com toda certeza.
Uma enfermeira bateu na minha cara, e senti aos poucos que estava viva, pois as luzes artificiais me surgiram como spots, e naquele brilho frio pude ouvir vozes conhecidas, na verdade estava acordada, só um pouco viajandona com o cheiro de éter. Ouvi o Maurão falando com aquele tom melancólico de quem está de bode depois de detonar vários produtos prejudiciais à saúde. Isso que era foda, ele no final das contas era apenas uma bichona, recalcado e chorão. Lili estava ao meu lado, com os cabelos soltos. Seus olhos tinham água, e com seu portunhol chileno me disse Pô! Pense que voce irse para lo sueño eterno, caralo! Dísete major miedo na gente!
Eu não consegui falar nada. Aquela sonda enfiada na minha mão me deixava deprimida. A alegria de viver dura pouco, e amarramos nossas frustrações em nosso pescoço, até que resolvemos gravar um After Advice e dizer aos nossos amigos, não bebam, não fumem, não cheirem, não amem...


(Célia Demézio)






domingo, 3 de junho de 2007




As dores do outro não são minhas.
É meu o mar que vejo e o sol que me brilha.
As dores do outro se derramam em mim
E acolho o Deus que existe no outro em mim.
O outro em mim não me pertence e vergo meu ser
Para entender em mim a dor que dói sem doer.


(Zezé Goldschmidt )

VAMPKLAUSS III


Eu sempre acho uma surpresa presa no fundo do baú.

As janelas estão para o alto

E a fumaça do cigarro navega no horizonte.

Teleplay não me diz muita coisa,

Já estou muito cansada para dormir.

Volta ao mundo num balão,

Porque o mundo está de cabeça para baixo.

Levanta Lázaro!

Minha ingenuidade virou estupidez: tudo tem seu preço.

Fora as baixarias do Chacrinha nada se cria.

Tudo se copia.

Corrente de oração para os desesperados.

Depois das sete não estarei, ficarei contando carneirinhos,

Enquanto o lobo não vem, enquanto não sou de ninguém.

Enquanto as grades forem de ferro,

A minha estará azeda, meu bem.

Para cortar os pulsos e você me sugar.

Eu vou virar vampira,

Sem o dente do juízo para me aconselhar.


(Célia Demézio)

terça-feira, 29 de maio de 2007

A máscara


Eu sei que há muito pranto na existência,
Dores que ferem corações de pedra,
E onde a vida borbulha e o sangue medra,
Aí existe a mágoa em sua essência.

No delírio, porém, da febre ardente
Da ventura fugaz e transitória
O peito rompe a capa tormentória
Para sorrindo palpitar contente.

Assim a turba inconsciente passa,
Muitos que esgotam do prazer a taça
Sentem no peito a dor indefinida.


E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca
A humanidade ri-se e ri-se louca
No carnaval intérmino da vida.

(Augusto dos Anjos)

"Eu não tenho enredo. Sou inopinadamente fragmentária. Sou aos poucos. Minha história é viver".


(CLARICE LISPECTOR) Mais uma gentil colaboração de Lee...

domingo, 27 de maio de 2007

A GAROTA QUE QUERIA SER BEAT


Chove lá fora e aqui faz tanto frio...Peguei a garrafa e tomei um gole de conhaque pelo gargalo. Procurei me concentrar mas não conseguia ter nenhuma idéia original. Tomei mais um gole de conhaque. É, as coisas estavam começando a ficar complicadas. Liguei para o editor e ele estava em reunião. Liguei de novo e ele continuava em reunião. Na terceira ligação a secretária me disse que o editor havia mandado eu me fudê. Bem, em resumo era isso mesmo que eu tinha entendido, antes da secretaria desligar o telefone na minha cara, e eu pudesse lhe dizer, muito obrigada. Eu estava atrasada e o negócio editorial possuía suas normas rígidas. Quinze páginas em branco, e só faltava preenche-las com alguma estória impressionante, fascinante ou mesmo interessante. Pensava em uma história simples, porque afinal de contas, não iriam me pagar tanto. Mas, nem o simples se alcança tão facilmente. Comecei a picotar papeizinhos enquanto tentava raciocinar com o feixe do meu sutiã. O tempo passou e nada. Devo ter picotado justamente quinze papéis, pois havia um morrinho branco à minha frente. Espalhei o morrinho branco como fosse uma espécie de deus destruindo o mundo com minhas próprias mãos. Passei três horas olhando para as minhas unhas e nada. Na minha gaveta encontrei uns pincéis atômicos. Comecei a escrever nas paredes: “era uma vez um burro chinês”, “oito horas de sono”, “uma colher de açúcar”, “legalize já”, “coca-cola é isso aí!”. Queria ter uma idéia com aquela loucura toda. Mas nada. Resolvi então mandar tudo a merda e viajar para São Luís do Maranhão. Mas as coisas nunca são o que a gente deseja. Isso faz parte do Mundo. É simples, você se fode sempre. Antes de viajar o meu editor me ligou pedindo que eu lhe devolvesse o dinheiro que ele me pagara adiantado, pois tinha contratado um escritor beatnic para a sua coluna “A Hora e a vez dos Marginais”. Mas isso não me afeta, em nada. Quando cheguei em São Luís do Maranhão, logo no terceiro dia, caí de cama com uma intoxicação aguda. Foram os malditos caranguejos. Eu havia comido pelo menos uns quinze e os filho-da-puta me detonaram!

(Célia Demézio)

QUAL É MESMO O SEU NOME?


De toda a grana que eu havia ganhado nos últimos dois meses restava apenas uma nota de vinte e uma opção; Ir até o cinema assistir o último filme dos irmãos Ethan e John Cohen. “O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ” era o filme em questão. E para sobrar algum trocado, decidi que iria até o cinema onde o filme estava em cartaz a pé mesmo. E para o meu desespero o tal cinema ficava dentro de um shopping no centro de Santo André...
Eu já manifestei inúmeras vezes a enorme ojeriza, o asco e o ódio que eu sinto por shoppings. Mas sempre que posso eu aproveito para descer o cacete nesses templos de adoração à estupidez humana. Neles, onde poesia não mofa porque lá, nunca ela conseguiu existir. Tudo de plástico. “Fake”. Engessado. Mas enfim; Eu não tinha opções. Então quando deu seis horas da tarde, eu enfiei minha calça preta, meu tênis All Star, vesti a minha camisa do The Clash, peguei a jaqueta jeans e iniciei minha caminhada rumo ao templo dos imbecis, atrás de um filme de qualidade que me desse alguma alegria. Resolvi levar também um livro do Baudelaire de poemas em prosa. Julguei que talvez, viesse a ter alguma utilidade...
Vinte e cinco minutos depois, eu já estava praticamente do lado da porra do shopping e então pensei; “Não. Careta não vai dar pra encarar esse lugar não!” E fiz uma parada estratégica num boteco que ficava bem em frente ao shopping.
Tomei uma cerveja e um conhaque vagabundo. Também comprei um maço de cigarros Camel, tirei um e dei umas boas tragadas. Depois, tive as minhas leituras interrompidas pelo dono do bar (aparentava) que sei lá porque, e contou que morou em Barcelona dois anos e que lá os catalãos boicotaram o consumo de gasolina nos postos locais devido a um inoportuno aumento. Fui Cortês.
Ouvi a história toda, sem mandar o cara ir tomar no cu e me deixar em paz... Como disse; Deixei que me contasse enquanto terminava de tomar pelo menos aquele conhaque. Terminei. E quando troquei a nota de vinte, prometi pro cara que voltaria. Balela. Entrei no Shopping.
Puta que Pariu!!
Enquanto procurava a porra do cinema e todos olhavam para mim assustados eu pensava se não seria melhor desistir de toda aquela “radicalidade” e gastar o resto do dinheiro no bar do catalão. Não desisti.
Faltavam apenas dez minutos para começar o filme e meu amor pelo cinema falou mais alto. Fui até a bilheteria onde, separada por um grosso vidro à prova de balas e de qualquer tipo de contato humano, uma mocinha de cabelos presos junto a um coque que a envelhecia pelo menos uns quarenta anos, me informou que “... A sessão das sete horas já esta lotada senhor...” Ou seja; Eu teria que fiar esperando até ás nove horas para ver o filme. Duas horas dentro do shopping! Aí virou questão de honra... “Vou ficar e ver essa merda e pronto!” – Resolvi.
Voltei a bilheteria, comprei o ingresso, descolei uma pilastra para me encostar e agradeci ao diabo por ter trazido o livro para ler durante àquelas horas. Já que nada parecia me chamar à atenção aquele lugar do caralho, acendi um cigarro e enfiei a cabeça nas paranóias em prosa do Baudelaire. E quando eu achei que permaneceria por ali entretido com aqueles poemas, apareceu aquela que me faria mandar à merda o francês genial e genioso...
Chegou na bilheteria um tanto quanto esbaforida. Comprou ingresso e imediatamente saiu do guinche cavoucando a bolsa até conseguir tirar de dentro, um telefone celular. Fez uma ligação. Não teve retorno e isso a deixou puta da vida; “Merda!”. Reclamou.
Nesse momento, eu, que já tinha a minha atenção voltada para ela a observei melhor e notei que seus cabelos curtos pintados de vermelho se realçavam ainda mais dentro daquele exótico visual devido a uma linda tatuagem tribal, localizada na parte de trás do seu pescoço. Usava uma jaquetinha de couro marrom e uma calça jeans deliciosamente agarrada. Tinha uma bunda linda! Um corpinho bonito e um rosto que, se não era tão lindo pelo menos completava bem o conjunto de toda aquela obra. Era gata sim.
E seu jeitinho de perdida no mundo, alienada, aquele andar desgrenhado, o barulho do salto das suas botas, a sua ansiedade em tentar se comunicar com o babaca que estupidamente insistia em não atende-la e todo contraste criado pela aparente cara de “patricinha” que ela forçava, criavam um encanto todo especial naquela mulher. Lá pela quinta vez que tentou ligar para o otário, nossos olhares se cruzaram. Naquela hora eu já estava sentado no degrau que dava acesso as salas de cinema.
Um cara com roupa de garçom do Mac Donald’s me perguntou se eu poderia me levantar dali e eu disse que não. Aí ele foi buscar outro que parecia gerente de sorveteria, vestido com uma camisa de manga curta e uma gravata de crochê preta, que me fez a mesma pergunta. Eu mandei os dois pra puta que pariu! Ela riu.
Começamos a trocar olhares e então eu a vi mascando um chiclete freneticamente com cara de puta enquanto me olhava por cima do ombro. Saiu andando e não precisava de mais nada...
Quando o garçom do Mac Donald’s e o gerente de sorveteria vieram em minha direção com outro, que usava um terno de funcionário de funerária, eu não esperei que ambos me fizessem a pergunta pela terceira vez; Me levantei, passei por eles e fui direto atrás dela. Agora, ela rebolava pra caralho e olhava para trás com cara de desafio sorrindo. Eu, tal qual um cachorrinho, andava atrás. Quando cheguei perto ela, da porta do banheiro feminino me olhou e sorriu. Não afinei, não!
Entrei com tudo no banheiro das mulheres. Limpo! Nojentamente limpo! Bem diferente daqueles em que eu costumava vomitar as minhas noitadas. Ela me olhou através do espelho com as mãos apoiadas na pedra de mármore que formava a pia do banheiro. Riu de novo. Eu não...
Cheguei por trás, a abracei encoxando-a e enchendo as mãos nos peitos dela. Tasquei-lhe a língua na orelha, deixando minha mão escorrer por dentro da calça dela. Achei! Enfiei o dedo na buceta dela. E ela me respondeu rebolando a bunda gostoso no meu pau, que, de tão duro latejava por trás da cueca. Depois, ela se virou e enfiou a língua na minha boca, puxando os meus cabelos, iniciando um beijo nervoso. Quando tentei joga-la em cima da pia ela não deixou:
Me empurrou, beijando-me até eu entrar em uma daquelas cabines. Quando entrei, ela se ajoelhou e ali mesmo chupou minha rola como ninguém jamais havia chupado antes, me fazendo gozar até no teto! Quando tentei virar o pau para gozar nela, ela se preocupou em não sujar a jaquetinha e se protegeu usando a cara. Não deixei por menos e a enchi de porra até a última gota!!
Quando terminei, estava literalmente de pernas bambas. Ela aproveitou e meteu as mãos no meu peito empurrando-me e me fazendo cair de bunda na privada. Depois me olhou altiva, vitoriosa com a cara melada e cheia de porra e sorriu definitivamente. Com a mão direita, eu fiz o sinal de paz e sorri também. Ela saiu, lavou o rosto e voltou para o saguão do cinema.
Eu me levantei peguei o livro do Baudelaire que eu havia largado em cima da pia e voltei correndo para a cabine. Rasguei uma folha e me limpei (Sabia que ele teria alguma utilidade). Vesti a roupa e quando abri a portinha da cabine, duas garotas deram de cara comigo e ficaram assustadíssimas:
“Qual é mina?! Preconceito mais besta...” – Falei olhando para uma delas enquanto eu saia do banheiro.
No saguão ainda encontrei a matadora do banheiro. Não nos falamos. Ela foi para a fila dela ver o Brad Pitt e eu fui para minha ver o Billy Bob Thorton.
Cada um tem o superstar que merece...


(MARCELO MENDEZ )

quinta-feira, 24 de maio de 2007


"Como será possível acreditar num Deus criador do Universo, se o mesmo Deus criou a espécie humana? Por outras palavras, a existência do homem, precisamente, é o que prova a inexistência de Deus."


(José Saramago)

SE



se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra


eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto



ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio




daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...



(Alice Ruiz)
olhar o mesmo olho

com outros olhos
em outro olhar


o mesmo olho
nos mesmos olhos


o olhar do outro

de olho





(Alice Ruiz)

quarta-feira, 23 de maio de 2007

PERCEPÇÕES


Ande um dia com a pele do outro

conviva

deixa a alma ser um pouco o outro

e arda

queime

desespere

mas apazigue

o espontâneo fere

mas só assim

se existe



O Poeta é a Mãe das Armas




O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral —
alô, poetas: poesia no país do carnaval;
Alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.

O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval (alô, malucos),
é traidor da poesia: não vale nada, lodal.

A poesia é o pai da ar
-timanha de sempre: quent
ura no forno quente do lado de cá,
no lar das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
poesia poesia poesia poesia!

O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso: ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a
r: em primeiríssimo, o lugar.


(poetemos pois - Torquato Neto) /8/11/71 & sempre.

VAMPKLAUSS II



Nada pode reunir o mundo num só!

Se olhos para os lados, os cantos se escondem entre o dia e a noite.

Senão existe mais nada,

Não é mais o inferno, não é o céu.

Se divirta com a vida e aperte o acelerador.

Está acabando esta velha história de HQ, dos meninos de colégio.

O brilho dos objetos e a cara pálida de purpurina.

A Festa do Anjo Exterminador.



(Célia Demézio)

terça-feira, 22 de maio de 2007

ÓTICA


Lugares pequenos... Os meus sonhos são bem maiores que o mundo...

Toda vida é mais curta que o tempo... Vou caminhar contra o vento...

Chegar elegantemente atrasado...Beber mel e veneno em uma boca...


Libertar-me... Prender meus olhos ao encanto de um amor profundo...

Talvez haja alguma tristeza nos labirintos escuros desse pensamento...

Eu vou sorrir... Vou fingir que a tal felicidade não é uma risada louca...


Juventude é uma beleza eterna na lembrança... Brincarei até a tarde...

Guardarei as memórias... Esconderei a dor nas almas dos brinquedos...

Vou sangrar o sol... Gosto da chuva leve molhando os meus cabelos...


Fecho os olhos, não gosto deste escuro... O céu, distraído se encarde...

As nuvens são levadas pelo vento que passou leve entre meus dedos...

Tenho uma formiga nas mãos... Há arrepios que nunca ouso contê-los...


Vou soprar de volta esse vento que me desequilibra... Só um assovio...

A distração é mesmo uma forma de magia... Vêem encantos em tudo...

Nesse mundo tão distraído tenho um sonho que teimando ainda existe...


Canto as canções esquecidas... Esquecer a bomba... O fogo no pavio...

Quero gritar na missa... Vou contar meus segredos sujos a um mudo...

O silencio é para sábios... Dançam os alegres... A musica é tão triste...


Descansar... Os meus pés doem tanto, vou correr em direção inversa...

Os calos nas mãos não me deixam sentir a textura fina e suave da flor...

Lembrei-me da ultima primavera... Os perfumes de um dia ensolarado...


Fazer festa... Comprar os amigos, vender o dinheiro e trocar conversa...

Aniversario... Vou gastar todo o meu salário e me alegrar com toda dor...

Vinho... Goles de vinho... Quero sentir vivo o meu coração anestesiado...


Taças quebradas, tontura, vomito e gargalhadas... A vida é uma piada...

Cacos refletem os raios de luz, mas meus olhos permanecem no escuro...

A embriagues distorce o mundo ou apenas a visão?... Não sei o correto...


As loucuras só não tem fim quando estou sóbrio... Mais uma gargalhada...

Eu vejo no fundo do poço ou do copo uma sombra rala deste tal futuro...

A verdade embriagada de enganos, cercada por altos muros de concreto...


Sinto-me seguro aqui dentro de mim... Não podem me tirar daqui agora...

Foi frio e solitário... Ainda não entendo o silencio e os gritos da parede...

Dormir agora... Acordar amanhã bem cedo... O trabalho que me aguarde...


Ligo meu despertador... Tomo um copo d'água... Está tudo bem lá fora...

Sinto um gosto amargo na ponta da minha língua... Há uma outra sede...

O coração às vezes bate violento e dói... Me dói mais quando não arde...


(Vidamorte)

segunda-feira, 21 de maio de 2007


Acho-me relativamente feliz

Porque nada de exterior me acontece...

Mas,

Em mim, na minha alma,

Pressinto que vou ter um terremoto!!!!!!!!!


(Mario Quintana) colabolaração de Lee

sábado, 19 de maio de 2007

VAMPKLAUSS


As mesmas folhas de sempre,

Tiradas de um plástico.

Escrevendo, escrevo, obedecendo as linhas,

Os parágrafos e as moedas.

No dia seguinte tudo é ressaca.

Tirar do fim do túnel, tudo que começa.

Uma bomba estoura enquanto fico comendo miolos de frigoríficos.

À meia-noite sinto um peso de tanto alívio.

A gente já sabe dos almoços aos domingos: frios.

Um dia após o outro tem sabor de alho.

(Célia Demézio)






"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão."

(Caio Fernando Abreu) Gentil colaboração de Lee...

DOS POEMAS DESNECESSÁRIOS


Mando meus desmantelos

meu coração intranqüilo

minhas faltas de data

minha pouca memória

e o melhor de mim

mando o que me navega

e os outros tráfegos

mando o que foi escrito com pressa

e outras urgências

mando o louco, o torto, o cético, o romântico

mando o explícito e desvairado

mando a música, a mais bonita

mando a orquestra, a banda

e uma voz rouca e outra ainda silenciosa

e digo que você me atravessa

como uma lança

e se aloja nos meus sentidos








O que voce vai dizer dos meus olhos que te miram...



da minha boca que te sussurra...



da minha mãos que te acaricia...



da minha cara impassível no meio de quase nada...



o que voce vai dizer das minhas luvas vermelhas...



vermelhas como minhas garras...



das minhas coxas displicentemente apaixonadas pelas tuas...



do meu sexo cheirando a flor, dos meus cabelos entrelaçados nas tuas mãos, ah, as tuas mãos!


suspiro!...fundo...


(Lee..... )

sexta-feira, 18 de maio de 2007

ASSIM VEJO A VIDA



A vida tem duas faces:

Positiva e negativa

O passado foi duro
mas deixou o seu legado

Saber viver é a grande sabedoria

Que eu possa dignificar

Minha condição de mulher,

Aceitar suas limitações

E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.

Nasci em tempos rudes

Aceitei contradições

lutas e pedras

como lições de vida

e delas me sirvo

Aprendi a viver.


(Cora Coralina )

MARGENS


você me disse pra cantar um blues

mas é que eu ando tão desafinado

também não fico procurando um tom

não se preocupe se eu estou errado.

não caiba dentro dos meus olhos

corra todos os perigos ou saia desse filme!

o poeta é um bandido sem eira nem beira

misto de louco e mendigo.

o poeta não cabe no próprio poema

o poeta é um subversivo.

o poeta é um anjo de línguas

a verve do próprio desejo.

o poeta é a festa, o carnaval do poema.

o poeta é o crime atravessando a palavra

o poeta e seus ismos, atímicos delírios.

o poeta engendrando amarras e gemas

pra depois explodir com todas as margens.

o poeta é a puta ocupando as esquinas

o poeta é a fama, o lado sacana, o bobo da corte

o poeta conspira um sonho pro mundo em seus calabouços.


LETRA E MÚSICA: Claudia Ferrari


"O amor nunca morre de morte natural. Morre porque nós não sabemos reabastecer sua fonte. Morre de cegueira e dos erros e das traições. Morre de doença e das feridas; morre de exaustão, das devastações, da falta de brilho"
(Anais Nin)

ENTRE QUATRO PAREDES


"A nossa pena é simplesmente esta: arder em desejo, sem a esperança de sacia-lo". (Dante Alighieri)

"Eu tenho pressa, não minto, mas sinto que estou entre as quatro paredes da vida, e tenho sede meu amor, e guardo tudo, com muito cuidado, dentro de mim". (Sérgio Sampaio.)


Como posso sair daqui sem me machucar, olhar a luz do sol e gritar liberdade? É um lugar pequeno, tão sufocante, tão escuro. Ergo meus dedos e apalpo a madeira. Por vezes me firo com alguns pregos arrebitados. Ai! Grito, mas ninguém me ouve. Acho que grito baixo demais, de certo. Meus dez dedos estão sangrando, e os coloco na boca, chupo aquele doce acre vermelho. Sinto muita dor nas costas, pois o teto é baixo demais. Fico assim, encolhida, meus joelhos chegando ao queixo. Aliás, se abro a boca meus dentes arranham meus joelhos, e sei que também eles estão sangrando. Não consigo me virar, nem para esquerda, nem para direita, e nem para trás. Mas escuto muitas vozes no lado de fora. A vida caminha normalmente, como deus quer. Louças sendo lavadas, som de axé até o talo, outras vezes é o Marlyn Mason e consigo visualizar suas unhas negras arranhando minha cara. Televisão piscando ondas de luz coloridas pela brecha do único buraquinho de meu espaço, tão pequeno e tão desconfortável. Uma pequena brecha, minúscula, na altura dos meus olhos, e assisto uma família correndo pra cá e pra lá, atrás do não sei o quê, porque estou aqui no lado de dentro, e eles estão lá, no lado de fora. Isso vai o dia inteiro até o final da tarde, quando todos se reúnem em seu sofá velho, cheio de pulgas, todos paralisados pela magnitude das quatorze polegadas, que cabe o sucesso, brilho, guerras fenomenais, amores arrebatadores e performances de sacanagens do mundo inteiro. Era hora do jornal nacional e depois a esperança da heroína da novela. Parece que está emocionando a família, pois ouço comentários que lindo! Jesus do céu! Olho pelo buraquinho o sorriso do presidente da república. Meus olhos se enchem de lágrimas, mas não posso nesta minha posição desconfortável expressar merda nenhuma. No momento estou ocupada, e não posso fazer grandes coisas pelo meu país. Quem sabe nas próximas eleições? Assisto, somente. Queria só sair daqui e ver o pôr do sol, estou melancólica e muito pálida. Não que isto me incomode, mas é ruim para procurar emprego. Afinal de contas, a vida continua. Fecho os olhos e imagino estar caminhando numa sala de espera totalmente vazia, um ar condicionado gelando meus ossos, e eu começo a acelerar meus passos para me esquentar. Apenas ando de lá pra lá e pra cá e penso qual a próxima tarefa?, qual a próxima conquista?, qual a próxima derrota?, quando o cansaço derradeiro? Abro os olhos e nada de luz. Todos foram dormir. Tiveram o cuidado, tenho certeza de tirar a televisão da tomada, dar água para o cachorro e trancar as portas. Só ficou o sofá cheio de pulgas. Elas dormem aí mesmo. Todos estão sonhando, com leve sorriso no canto dos lábios e uma baba de fadiga milenar escorrendo no travesseiro. Vou tentar dormir também. Ninguém é de ferro. Quem sabe? Amanhã resolvem me encontrar, como sem querer, lembrarem que tinha muito pó, aqui por esta área. E dizerem saia daqui! Chispa! Me enxotem, me dêem um pé na bunda. Sairei corcunda, com uma hérnia de disco a me atormentar. Sangrando, os olhos fundos e vermelhos com os flashes das luzes do dia, sempre tempestuoso, rumo à rua, seus trajetos, seus atalhos e suas armadilhas. Let’s go, baby!

Célia Demézio

quinta-feira, 17 de maio de 2007

RE - SEIOS







Em cima da mesa ponho.



Debaixo da mesa guardo.



Limpo o pó de todo brilho.



Escolho o feijão que vou plantar olhando a noite germinar.



Ligo o ventilador e saio voando.



Passo férias de duas horas em Paquetá.



Então me lembro que esqueci a chave.



Volto mexendo os dedinhos como se fossem nadadeiras no ar.



É hora de trabalhar!



Um prato apoiado no livro. Sedas vazias. Palitos apagados.



Um nó no fio da televisão.



Reviro gavetas atrás de sutiãs.



Procuro inspiração.




(Célia Demézio )

O CORVO



1 Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste, Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais, E já quase adormecia, ouvi o que parecia O som de algúem que batia levemente a meus umbrais. "Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais. É só isto, e nada mais."
2 Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro, E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais. Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais - Essa cujo nome sabem as hostes celestiais, Mas sem nome aqui jamais!
3 Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais! Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo, "É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais; Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais. É só isto, e nada mais".
4 E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante, "Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais; Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo, Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais, Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais. Noite, noite e nada mais.
5 A treva enorme fitando, fiquei perdido receando, Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais. Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita, E a única palavra dita foi um nome cheio de ais - Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais. Isso só e nada mais.
6 Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo, Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais. "Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela. Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais." Meu coração se distraía pesquisando estes sinais. "É o vento, e nada mais."
7 Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça, Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais. Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento, Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais, Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais, Foi, pousou, e nada mais.
8 E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura Com o solene decoro de seus ares rituais. "Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado, Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais! Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais." Disse o corvo, "Nunca mais".
9 Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro, Inda que pouco sentido tivessem palavras tais. Mas deve ser concedido que ninguém terá havido Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais, Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais, Com o nome "Nunca mais".
10 Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto, Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais. Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais Todos - todos já se foram. Amanhão também te vais". Disse o corvo, "Nunca mais".
11 A alma súbito movida por frase tão bem cabida, "Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais, Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais, E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais Era este "Nunca mais".
12 Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura, Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais; E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais, Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais, Com aquele "Nunca mais".
13 Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo À ave que na minha alma cravava os olhos fatais, Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais, Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais, Reclinar-se-á nunca mais!
14 Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais. "Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais, O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!" Disse o corvo, "Nunca mais".
15 "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta! Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais, A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo, A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais! Disse o corvo, "Nunca mais".
16 "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta! Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais. Dize a esta alma entristecida se no Édem de outra vida Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais, Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!" Disse o corvo, "Nunca mais".
17 "Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte! Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais! Não deixes pena que ateste a mentira que disseste! Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais! Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!" Disse o corvo, "Nunca mais".
18 E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais. Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha, E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais, Libertar-se-á... nunca mais!
(Edgar Alan Poe) - Trad. Fernando Pessoa
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