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O MENINO QUE DORMIA

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Ele entrava na escola no colo da avó, e dormia profundamente. Era tão cedinho ainda... Enquanto a professora cantava em roda com os seus amiguinhos, a música de boas-vindas, ele dormia, profundamente. As primeiras horas do dia eram feitas de sonhos, e por isso, talvez, o menino não queria acordar. Enquanto o mundo acordado fazia um monte de coisas, o menino ficava de olhos bem fechados, e o colorido da classe não atingia sua íris. Só quando davam nove horas... o dia começava para o menino... ele agora continuava sonhando, acordado... (Célia Demézio)

O MEDO DA MENINA

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Ela tinha medo, de muitas coisas. Como por exemplo, de pombo, de dinossauro, de balance, do escuro. Chorava muito quando tinha medo. Ficava assustada com brincadeiras de monstro. Arregalava o olho e abria o berreiro. Chorava tanto que ela salgava toda a boca, parecendo que estava tomando sopa de lágrimas. Um dia sua mãe disse que tudo que ela tinha medo não fazia mal nenhum a ninguém. Ela podia ficar tranqüila, porque nada aconteceria no escuro, e que os pombos não mordiam ninguém. A voz de sua mãe era tão suave que a menina adormeceu em seu colo e sonhou que estava brincando com pombos, assistia desenhos de dinossauro e que o escuro tinha cheiro de chocolate. A partir daí, a menina não teve mais medo, e viveu feliz com tudo que existia no mundo... (Célia Demézio)

O ATRASO

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O canto da televisão avisava a hora marcada. Cobria um pedaço do terno do entrevistado. Tentei marcar as horas no relógio digital. Mas não conseguia alcançar a hora exata. Por milésimos de segundos estava atrasada. Fiquei com o dedo nos botões, prontos para acertar o tempo. Um toque no botão das horas, dois toques nos botões dos minutos. Por questão de distração fiquei dois minutos atrás. Quando tentei acertar, adiantei-me para o dia seguinte... De qualquer forma, é uma forma de atraso... Passei por alguns segundos, da quinta para sexta-feira... Logo tratei de voltar os ponteiros para trás. Tentei alcançar o horário marcado no canto esquerdo da TV. Mas nunca consigo ser pontual com o que vejo... Por milésimos de segundos muita coisa já passou bem na frente do seu nariz... É cruel essa corrida contra o tempo... A entrevista acaba: "Obrigado, mas nosso tempo esgotou"... Depois de uma hora, vieram os créditos finais... (Célia Demézio)

MISSÃO COMPRIDA

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Você conseguiu tudo na vida: uma grande barriga bem alimentada, uma amante infiel uma esposa comportada carro do ano filhos rebeldes ao teu jugo tirano casa própria, emprego com crachá um sítio em Visconde de Mauá um ufanista amor pelo país tudo como manda o figurino(de Paris). E morrerá, cumprindo a sua parte, de tensão ou de enfarte, de repente, sem nem ao menos de longe perceber que podia ter sido diferente. (Leila Míccolis) http://www.blocosonline.com.br/home/index.php

Las cortinas y Mi monstro

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Me dan miedo las cortinas, en realidad no son las cortinas sino lo que hay detrás de ellas, aquello que no vemos pero imaginamos. Siento un temor especial cuando para emprolijar la casa cierro la cortina de la ducha, la única que existe en casa, escondiendo baldes, secadores de piso, trapos, lavandinas, detergentes y otras cositas. No puedo evitar pensar que hay alguien escondido allí. Y así fue que temiendo sin sentido sucedió lo que mi temor deseaba. Fue unas de aquellas defecadas irrepetibles, esas que complementan un par de días sin nada, el almuerzo del domingo, y las porquerías que comí el sábado porque salí de joda y me chupé todo y después me comí todo para rebajar mi soberano pedo etílico. El caso es que al correr la cortina me lo encontré, era un monstruo literal y se parecía a mí, pensé por un segundo que estaba llegando al final de mis días. No fue así, después de extensas conversaciones y sin otra que asumir mi exposición escatógica llegamos a un acuerdo, de a poco nos hic...

UMA NOTA SÓ

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" Já me utilizei de toda a escala/E no final não sobrou nada/Não deu em nada" Samba de Uma Nota Só (Tom Jobim) Essa música... nunca pára... Infinita... soa, como de hábito... , mas a vida continua. Talvez eu tente escolher uma trilha sonora para cada cena... mas só existe uma música... que nunca pára de tocar... E lá se foram os anos... vinil... fita cassete, e agora, neste exato momento, CD, MP3, e cliques do mouse... mas essa música nunca pára... de tocar. Há anos em meus ouvidos. Já virei o disco... mas houve defeito de fábrica. Do outro lado não ouço nada... apenas ecoa... infinitamente... o silêncio... ou seja, ou o silêncio... ou a mesma música de sempre. Essa é a escolha. Hoje acordei, tomei um copo d´água, um gole de café preto e um cigarro. Liguei o computador, zanzei de um lado para o outro, por e-mails, deletei spams, e começou a chover mais forte... O quarto sujo, papéis e poeira... dei uma varrida para distrair a mente... Pus a Elis para tocar... e abri uma lata...

VAMPKLAUSS IV

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As horas são poucas, mas continuam, No escuro, rondando em círculos. Basta alguns passos, Para nunca e sempre chegar. Meu tempo é igual ao seu, Sem desvantagem nenhuma. É a vida que faz pensar assim, Para frente e para trás, Sem momentos de parada. Só são sonhos, que constroem pontes E delírios no mundo. Olhando de um lado ou para outro, Zonzeira de se fazer... Mas tudo que se faça é inútil, Por tanto, continuamos a trabalhar, De dia e de noite... Tentando, mas não tanto. É meia-noite, vou me levantar Porque de manhã as coisas surgem num piscar de olhos. Não temos mais nenhum segundo, E nem tantos minutos... Apenas vinte dedos. (Célia Demézio)