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OLHOS SOBRE TELA...

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Estava muito cansada, o dia, como sempre, foi cheio. De manhã, o café, o rádio, a hora certa, o cigarro, a chave entre as almofadas. Sair, pegar ônibus lotado, caras desanimadas para mais um dia de trabalho, emprego, salário de merda, hora do almoço, uma hora para mastigar, preencher mais formulários, digitar listas, seis horas da tarde, horário de verão, desligar os computadores, pegar novamente um ônibus, lotado, caras cansadas, trânsito lento, pernas e cabeça doendo, procurar a chave de casa nos bolsos, abrir a porta, fazer janta, servir-se, sentar-se e ligar a TV. Notícias, jornal das dezenove horas, seqüestro de empresário, criança cai no poço pluvial, continua os conflitos no Oriente Médio, reajuste aos aposentados, casamento do Príncipe de Bruxelas, sem-terras invadem departamento do INCRA, turnê da Madona, os comerciais. Refrigerantes, lojas de eletrodomésticos, propagandas do governo, lindas mulheres e carros zero quilômetro, cervejas geladinhas, combate às drogas, mais dez am...

EM MEU OFÍCIO OU ARTE TACITURNA

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Em meu ofício ou arte taciturna Exercido na noite silenciosa Quando somente a lua se enfurece E os amantes jazem no leito Com todas as suas mágoas nos braços, Trabalho junto à luz que canta Não por glória ou pão Nem por pompa ou tráfico de encantos Nos palcos de marfim Mas pelo mínimo salário De seu mais secreto coração. Escrevo estas páginas de espuma Não para o homem orgulhoso Que se afasta da lua enfurecida Nem para os mortos de alta estirpe Com seus salmos e rouxinóis, Mas para os amantes, seus braços Que enlaçam as dores dos séculos, Que não me pagam nem me elogiam E ignoram meu ofício ou minha arte. (DYLAN THOMAS tradução: Ivan Junqueira ) . http://www.culturapara.art.br/opoema/dylanthomas/dylanthomas.htm

SERENATA

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Mais um dia, e ainda tenho desejos. Houve lágrimas no fim do dia, Indecisões e certezas juradas de pés juntos. Flertes e mentiras. Só resta este sorriso amarelo E uma vontade de ir... Como o mar anda agitado! E pessoas desmaiam na multidão Cansadas de suas gravatas Mancando em seus saltos altos, Tendo câimbras nos dedos Tentando alcançar a última oferta do dia, e acabar com as prestações vencidas. Todos os dias se respira E se acumula no peito Boleros, sambas-canção, proibidões, Jazz e fumaças de cigarros. E ainda tenho desejos. Embora nada alimente, Nada acabe com a fome. Por isso tantas manchetes, Tantos atropelamentos, tantas desculpas. O olho direito treme, Stress em alto mar. Diagnósticos, terapias modernas, Novas tecnologias, imagens do interior. AVC, ICC, DEPRESSÕES PÓS-PARTO. Existem disfarces, mal feitos. Ninguém acredita no fundo: Tudo Bem ! Para não se esquecer de nada, Acredita-se no dia seguinte. Então procura-se sobreviver, Como se procurar amarrar os sapatos, Para não tr...

PARTITURA

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Triste do poema pronto Na ponta da língua Hoje é o dia do outro poema Triste de quem perde a vez Anda na moda que a fila anda Não há fila se há vez Olho ao redor e vejo destino E outras conspirações do tempo e alguns desertos e outras pausas Penso que tudo é música A me dizer Toca OuveSenteDiz (ou cala para sempre a tua insensatez ) (Claudia Ferrari) http://automoveisepoemas.blogspot.com

A CIDADE

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Eu sou a Cidade, que te protege. Sou eu quem você procura, para te livrar da dor a noite. Você corre nas minhas veias em busca do segredo em busca da liberdade. Mas a morte também ronda em mim, e as vezes você encontra com ela de cara. Mesmo assim você teima em correr... E eu te escondo em minhas veias em meus prédios, casas, abrigos, pontes, esgotos e muros. Sou eu quem você teme. A Cidade que você nasceu, naquele dia em uma de minhas veias onde já corriam outras vidas. Sou eu quem te esconde, quem te protege, quem te machuca e te cura. Tendes a fugir de mim ainda que saiba que sou tudo em sua vida. Saia de mim, sua cidade, e vá para outra e mesmo assim uma cidade em sua vida você terá. Que terá veias, vida, fome, corpos em movimento, a musa, o deus, os reis da noite, cheia de luzes a cidade ainda corre na sua veia. Não importa o que você sinta, quando a noite cai, você está em mim e eu em você tambem estou. Você corre, pára, estuda, olha com atenção e não vê que mesmo assim ainda é m...

Meu eu escorado

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Bandit sozinho em casa, a solidão do apartamento... a solidão é uma poltrona confortável de cores sombrias... Abri um nacional mediano, gelo de forminha, e encontrei duas latas de soda na geladeira... Sem música, sem vídeo, só as paredes na penumbra do abajur... não, eu não vou descambar pras sacanagens hoje, não estou a fim de conceder nada pra literatura agora, nem vou contar uma história, desiste agora se você espera isso... não confie no que disseram sobre minhas habilidades... talento? É. Dizem por aí que sou um cara talentoso, se defendesse Raskolnikov do duplo homicídio ele pegaria no máximo 13,6 anos de reclusão e deixaria de ir para a Sibéria. Mas o que faço com meu talento? Sorry, mamãe, eu uso pra comer putinhas de graça, mas nem sempre, adoro pagar pelo sexo... Coerência... dez mil anos de uma civilização capenga, milhares de universo caótico e o tipinho de gente que anda por aí... Eu acho que evoluímos até demais, considerando o tipinho de gente que anda por aí... o mundo ...

O CAMINHO DO CINEMA

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A televisão ligada. Luz e imagem. No canto direito o braço de um violão. Uma bolsa desfocada atrás. À esquerda o som, a mesa, à direita, o armário. Mosquitos invisíveis. Alguns versos, saem palavras. Um papel jogado, ao lado um abajur. Unhas compridas e sujas. Cigarro aceso na mão esquerda Entre os dois dedos levantados para cima. Paz e amor. Coisas. Parede cinza, janela fechada. Nuvens de fumaça. O som da Bethânia anos 80. Som de fundo, a trilha sonora... Todos os caminhos, todos. (Célia Demézio)