quarta-feira, 13 de junho de 2007

O RISCO


Aos poucos bordei a toalha. As flores nasceram frágeis e cresceram em ponto cruz no retângulo. Um pano branco passivo no tempo. Ao fundo a música de Bizet tocava as batidas dos saltos de Carmem. Um touro passou por minha sala. Acompanhei com o olhar o quadril elegante do bailarino no dourado das suas calças. Não atendi a chamada do interfone. Meus lábios entreabertos olharam o vazio. Agora eu terminara de bordar. Pouco restou da vida que brilhava lá fora. A árvore da felicidade na sala insistia em crescer, apesar do pouco que eu fazia por ela. De vez em quando me lembrava de regá-la. Peguei a linha amarela para guardar e não me dei conta da pressão na panela. O tomate congelava na geladeira, assim como os legumes, o queijo e os líquidos. Fora descongelada no último final de semana, mas eu não me entendia com a graduação na qual deveria animá-la. Seria perto do dois ou perto do off? A segunda-feira pegou-me de jeito e fiz dela o possível. Não foi hoje que marquei de ir ao cinema? Como passa o tempo! Hoje não sou mais aquela lá que marcou o compromisso. Hoje não quero ir ao cinema. O colorido da flor estampou meu rosto. De manhã li um trecho da Paixão Segundo G. H.. Descobri outra ponta que preciso bordar. Acho que está tudo em seu lugar. Quero sempre estar aqui e nunca estar lá. Vou desligar a panela de pressão, para não causar acidente. Apesar do ruído do trânsito, percebi o devorador de mulheres em decomposição. Ultimamente o vento tem me atrapalhado. O peixe, o cristal e a peça arqueológica à minha esquerda esperam-me.


(Zezé Goldschmidt)

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